9.3.12

O saber paralisante


Daí a gente, depois de quase cinco anos, termina a tese. Daí a gente acha que sabe tratar de tudo - ou quase tudo - que diga respeito aquele tema. Daí a gente recebe um telefonema do curador de um evento bem legal, que reúne um monte de nomes bacanas em torno de um mesmo tema. Daí vem o convite: 'teu nome foi indicado para compor uma das mesas, você topa?'. E é claro que você topa! O espaço é lindo, o evento é legal, os participante são geniais. E aí você pensa: puxa, é exatamente o tema que me apaixona, tenho um monte de coisa legal prá falar a respeito, dou conta fácil! E daí... daí.... dá um branco!
É verdade, tenho mesmo um monte de coisa legal prá falar (legal para mim, ao menos...), é verdade, passei um tempão pesquisando o tema: desejos e cidades. E é verdade, mesmo com a tese terminada, não entrei naquela 'trip' tão comum de 'nunca mais quero ver esse tema na frente', ou seja, me empolga muito falar do que estudei tanto tempo. Mas, quando paro para decidir o que exatamente vou escolher falar sobre esse tema tão vasto em apenas uma hora... Ah, não é fácil! Estou há dias me embatendo com esse impasse. Daí hoje, vi uma amiga postar essa tirinha do Calvin no facebook. E entendi o quanto isso é comum. Não acontece só comigo o tal do 'saber paralisante'!
De qualquer forma, ter visto a tal tirinha teve o poder de me fazer decidir a maneira de recortar o tema tão amplo e selecionar um eixo. E daí, na semana que vem estarei lá, no Museu da Vale do Rio Doce, falando a respeito de "De quantos desejos se faz uma cidade? A arte cotidiana de construir sociabilidades". Mais uma vez, unindo as minhas duas paixões, cidade e cinema, tentando entender melhor como funciona essa grande colméia humana na qual vivemos...
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Aqui, os textos dos palestrantes disponibilizados para download.

16.2.12

Mergulho...


... em um mundo novo!
Clave de Sol, Clave de Fá, Mínimas, Semínimas, Breves... Nomes que nunca haviam feito parte do meu vocabulário agora preenchem uma parte do meu cotidiano. Pois é: aprender um instrumento é muito mais do que apenas dedilhar cordas ou teclas tentando acompanhar uma melodia.
Na primeira aula, para minha surpresa, não saí da mesa sobre a qual se espalhavam as diversas folhas com o be-a-bá da teoria musical. O piano estava ali do lado, fechado, sisudo, como a me dizer: 'humpf... sai fora, você ainda não tem conhecimento suficiente prá sentar aqui e mexer em mim...'
Na semana seguinte, me sentei em frente a ele pela primeira vez.... para dedilhar escalas! Polegar no dó central, passei boa parte da tarde no monótono dó-ré-mi-fá-sol-lá-si... si-lá-sol-fá-mi-ré-dó. E errando! Descobri, para minha desolação, que não é fácil fazer algo diferente com as duas mãos ao mesmo tempo...
A partir disso, fiquei pensando como é saudável, a essa altura da vida, dar esse mergulho em algo totalmente diferente do que estou habituada. Claro, nunca me faltaram desafios. Quem acompanha os meus relatos de algum tempo sabe que acabei de sair de um longo processo de doutorado que foi absolutamente desafiador. Não posso mentir, foi difícil, complicado, penoso em alguns momentos, mas era um terreno que, se não conheço todo, ao menos sei como me mover nele. Algo assim: eu nunca dirigi um caminhão, mas, se eu dirijo bem um automóvel, não vai ser tão difícil eu aprender a guiar algo diferente, mas que é regulado pelo mesmo princípio. Que venha o caminhão, então!
Continuando na mesma metáfora, aprender música, para mim, é como aprender a pilotar um avião. Não importa quantos carros, motos ou caminhões eu possa ter dirigido, nada me preparou para estar flutuando em um veículo cujo modo operacional é diferente de tudo o que conheço.

Me aproximar da música como aprendizado, seja na teoria, seja, agora, no iniciozinho da prática, tem para mim esse gostinho: é uma água na qual eu nunca nadei, um ar no qual eu não sei me mover, um terreno que se move embaixo dos meus pés e ao qual eu tenho que prestar atenção o tempo inteiro, um labirinto do qual não tenho certeza de que há saída... ou seja, um baita desafio! E, por isso mesmo, uma delícia!
Outro dia, em uma conversa, eu ouvi: 'conviver com você é um desconforto constante, é desestabilizador'. Fiquei ofendida e perguntei o porque. A resposta foi: 'porque você não pára quieta! Acabou de terminar o doutorado e já está aí com esse arzinho de 'o que é que eu vou aprontar agora?' Na hora eu disse que não, que nada disso, que eu vou sossegar, que quero descanso... Mas agora, pensando bem... não é que ele tinha razão?

9.2.12

Finalmente...

Desde pequena o som dele me atrai: rico, complexo, suave ou forte, a depender da ocasião. De Chris Martin (Coldplay) a Keith Jarrett, os músicos de diferentes estilos que o utilizam como meio de expressão sempre me atraíram.
Mas, curiosamente, embora apaixonada pelo seu som, nunca pensei à sério em aprender à tocá-lo. Achava um instrumento por demais difícil, por demais inibidor... imagina, um piano!
E aprender algo assim complicado, já na fase adulta, quando todo mundo sempre diz que aprender um instrumento com perfeição é coisa que se faz desde a infância? Além disso, qual a graça de tocar um instrumento que só eu vou ouvir, já que de 'portátil' ele não tem nada? Todas essas dúvidas paralizantes e aparentemente 'sensatas' me fizeram adiar por anos esse sonho: aprender a tocar piano. Até que um dia parei para pensar de verdade, despida desses conceitos pré-estabelecidos com os quais nos vestimos e tentamos explicar a vida de maneira racional. E descobri que não precisa ter o 'tocar prá quem'. Posso tocar apenas para mim mesma e para quem tiver a paciência de me ouvir, apenas pelo prazer de 'libertar' para o ar algo belo. Tocar com perfeição? pffff..... A esta altura da vida já abandonei os sonhos de perfeição e, muito pelo contrário, já me permito o direito de errar - às vezes feio - nas várias áreas pelas quais caminham os meus interesses. Além disso...
Sempre adorei música e minha vida foi atravessada por diversas 'trilhas sonoras'. Lembro de um dos primeiros presentes que pedi a meus pais, ainda criança: uma vitrola. Daquelas de plástico laranja, que abria e tinha na tampa furinhos redondos por onde saía o som. Na época, cd ainda era uma abstração... Quando passei no vestibular, minha mãe quis me dar um presente e eu escolhi... um disco do Dire Straits! Lembro dos diversos shows que saí 'catando' por aí ao longo dos anos: The Cure, Rolling Stones, Roger Waters, David Bowie, Cranberries, Radiohead... Fora os nacionais: Legião, Titãs, Cazuza, Lobão, Barão, Paralamas (sim, fiz parte daquela geração dos anos oitenta / noventa para quem o rock nacional era o que havia de melhor musicalmente) Hoje em dia, na minha bolsa, nunca falta o pequeno instrumento mágico que tem o poder de me transportar para outros mundos, outras emoções. O iPod, de alguns anos prá cá, tem sido meu companheiro inseparável das caminhadas, das esperas no dentista, no médico, e dos longos trajeto de metrô que fazia quando morava no Rio e em Paris. Aqui em Vitória, o porta luvas do carro está sempre tão abarrotado de cds que, quando abro, eles escorregam e caem... Enfim, eu não vivo sem música perto!
Então, pensando nisso tudo, é que parei para me perguntar: como é que passei esses anos todos sem aprender a tocar nem um instrumento?
Foi pensando nisso tudo que finalmente criei coragem para investir no meu sonho de tantos anos atrás: esta semana comecei a aprender piano!

30.1.12

E a sua pele, quem habita?



O escritor Luiz Fernando Veríssimo tem uma crônica na qual fala sobre um senhor, profissional bem sucedido, pai de família. Tudo corre normalmente na sua vida, até o dia em que ele resolve sair de casa com um... nariz de palhaço. Desses baratinhos, de plástico, uma bolinha vermelha com um óculos e um bigode acoplados. Um dia, esse homem o 'veste' e resolve permanecer com ele. Tudo nele continuava o mesmo. A única mudança era o nariz.
A partir daí, tudo na sua vida se modifica. De dentista respeitado ele vira motivo de chacota e piadas; sua mulher e filha não compreendem a sua atitude e acabam por abandoná-lo; seus clientes, receosos quanto à sua sanidade mental, migram de profissional; e a vida à qual ele estava acostumado parece escorrer lentamente pelos seus dedos.
Ao final da crônica - que, na sua mistura de lucidez e non-sense, lembra vagamente algo escrito por Kafka - ele se questiona: ele é o mesmo, a única diferença é a bolinha de plástico encaixada em seu nariz. Porque as pesoas agem como se ele fosse outro? Afinal, o que importa mais: ele, o homem íntegro, bom profissional, amoroso com a família, ou o seu nariz?
Há algum tempo, tivemos no Brasil um episódio que se assemelha - filosoficamente, ao menos - a esta situação. O cartunista Laerte decidiu começar a se vestir de mulher. Adepto do cross-dressing, Laerte se assume bissexual e tem uma namorada. Mas decidiu que a liberdade, para ele, passava por ter o direito de se vestir de mulher, com direito a brincos, unhas pintadas e bijouterias espalhafatosas. Uma rápida passada pelos comentários a esse respeito na internet mostra que a reação das pessoas em muito se assemelha aquilo descrito por Veríssimo: na ausência da compreensão, o que entra em seu lugar é a negação ou a pura e simples agressão. Passamos pela forma de reagir mais comum que é deixar no ar a pergunta, 'afinal, porque ele se veste assim?', chegando às piores grosserias direcionadas ao cartunista ou tentativas toscas de explicação (alguns defendem que ele passou a apresentar esse comportamento estranho depois que perdeu um filho em um acidente). São comuns frases pretensamente divertidas sobre o quanto as pernas de Laerte são feias ou como ele parece uma mulher com mau gosto para se vestir, até opiniões sucintas que simplesmente o chamam de maluco ou ridículo.
Não é minha intenção entrar na polêmica a respeito dos motivos que fazem com que o cartunista tenha tomado essa decisão, muito menos expressar a minha opinião estética a respeito do resultado visual deste homem que decidiu experimentar-se com outras cores e acessórios. O que me fez lembrar disso tudo e discorrer sobre esse assunto foi ter assistido o filme mais recente de Almodóvar, 'A pele que habito' (La piel que habito, baseado no livro Tarântula, de Thierry Jonquet).
Novamente aqui, temos aquela situação clássica: a arte suscitando o pensamento a respeito de uma questão sobre a qual normalmente não direcionamos muito tempo e energia. Seja porque já se tornou uma questão naturalizada, seja porque em alguns aspectos trate-se de uma questão desestruturante, a verdade é que não dedicamos muito tempo a pensar sobre a importância da 'pele que habitamos', e das suas possibilidades de mudança e manipulação - para além da pura e simples estética.
É certo que todos nós queremos ficar tão bonitos quanto possível. É certo que, muitas vezes, assumimos riscos - que frequentemente se revelam em todo o esplendor dos seus desastrosos resultados - na tentativa de atingirmos um grau de beleza satisfatório que sempre parece estar um passo à frente ou um degrau acima do que conseguimos. E ao assistir ao filme do cineasta espanhol, fiquei com a sensação que, à sua maneira, o que Almodóvar quis foi suscitar um pensamento a respeito deste fenômeno moderno: as possibilidades que temos, contemporâneamente, cada vez de forma mais invasiva, de modificar o nosso aspecto físico. E, em paralelo a isso, o quanto essas mudanças interferem no nosso aspecto psicológico, e mesmo, na maneira como somos percebidos pelo mundo.
Considerada como uma história de Frankenstein moderna, na verdade, o que película de Almodovar faz é perguntar: até que ponto continuamos a ser nós mesmos uma vez que mudamos radicalmente a nossa aparência? Em uma época na qual são possíveis desde plásticas radicais que muitas vezes transformam os pacientes dos ciurgiões em caricaturas de si mesmos, até os transplantes totais de face (por enquanto ainda utilizados com finalidades de recuperar vítimas de acidentes graves, mas alguém aí tem dúvidas de que em breve veremos aplicações estéticas para esta técnica?) a narrativa construída pelo filme questiona, um tanto quanto histriônicamente, em que ponto começamos a deixar de ser nós mesmos e passamos a ser outros.
Seja por um simples nariz, como relata Veríssimo, seja por permitir-se trocar a pele habitual de vestimentas por outras que revelam um gênero diferente do esperado, a questão é a mesma: onde está aquilo que nos confere a identidade? Posso mudar a cor do cabelo, o corte, o formato dos lábios, inflar as bochechas, sumir com as rugas e realizar todos os demais procedimentos considerados 'comuns' pelo reino das cirurgias plásticas e da cosmética. Mas, fica a pergunta: o que, se modificado, faz com que o mundo me perceba como 'outro'?
Quando resolveu fazer a adaptação do romance de Jonquet, Almodóvar declarou que o resultado seria um filme de terror 'sem gritos ou sustos'. Nesse aspecto, o cienasta é mais do que bem sucedido. 'A pele que habito' mostra que o maior terror pode estar bem perto. Pode estar simplesmente ao olharmos para o espelho. Ou para o interior das nossas mentes e desejos.

Em tempo: Confesso que eu, admiradora do trabalho de Almodóvar de longa data, não considerei esse um de seus melhores filmes. Atravessada por um 'que' de pedagogia excessiva, a narrativa apresenta poucos espaços para que o espectador construa a sua própria exegese a respeito daquilo que está sendo mostrado na tela. Enfim, como narrativa cinematográfica, não o incluiria na lista dos grandes filmes do diretor. Mas, se olharmos para os aspectos filosóficos amplos que podemos extrair dele, é um grande filme!



E se?...


... uma vaca caísse do céu?
Um casal de namorados está no meio de um rio, em um barco, passeando. O rapaz canta para a moça. Embora não entendamos nem uma palavra, já que eles são chineses, percebemos que ele expressa o seu amor por ela com a música. Os dois trocam um olhar carinhoso. Subitamente, uma vaca cai em cima do barco. Fade out.
Quem assistiu, reconhece nessa descrição o início de 'Um conto chinês' (Un cuento chino), filme de Sebastian Borentszein. Com bela fotografia, direção segura e excelentes atuações, é uma produção de 2011, assistida com um certo atraso por mim.
A maioria das críticas e sinopses a respeito do filme defende que a sua principal questão seja a respeito da comunicabilidade / incomunicabilidade humanas, de sentimentos que são universais a despeito das diferentes nacionalidades, de vidas que caminham sem direções definidas e, um dia, por um acaso, se cruzam. Tudo isso é verdade. Mas, ainda no impacto de ter acabado de assistir ao filme argentino, me peguei pensando que, no fundo disso tudo, o que Borentszein faz com sua narrativa é nos lançar uma questão sobre o sentido da vida.
Uma frase muito conhecida afirma que uma borboleta batendo as asas em um dos extremos da terra tem o poder de causar uma tempestade do outro lado. A sensação que fiquei, ao longo do tempo em que assistia a história, é que o diretor quis construir uma alegoria desta frase. Para isso, ele encadeia - a partir de uma vaca que despenca do céu - acontecimentos diferentes em vidas diferentes, que seguem, em países diferentes, cada uma ao seu ritmo mas que, um dia, se chocam. Do argentino Roberto, cuja vida segue procedimentos repetitivos que beiram a obsessão e caminha sempre no mesmo ritmo, com sua rotina de todos os dias que acontece de forma imutável, e do chinês Jun, que vai parar em uma país estranho depois de ver a tal vaca caindo do céu na direção de seu barco. Chinesinho dez, rotina zero. Do encontro entre eles se constrói o filme.
Curiosamente, ficamos sabendo, ao final do filme, que a notícia é verdadeira: em uma província chinesa, o piloto de um avião descontrolado se viu obrigado a livrar-se da carga de duas vacas, e uma caiu em cheio sobre um barco pesqueiro, afundando-o. O roteiro partiu dessa notícia - que é apresentada em sua versão original depois da subida dos créditos do filme - para imaginar os seus possíveis desdobramentos.
O argentino Roberto supre a sua vida enfadonha com novidades colecionando recortes de jornal a respeito de acontecimentos inusitados. O dia em que um 'acontecimento' real aparece na sua frente, na forma de um rapaz chinês que 'cai' de um táxi em Buenos Aires, isso tem para ele o impacto de uma vaca caindo na sua cabeça. A partir daí, a sua vida sai dos eixos tão cuidadosamente construídos e preservados por ele e começa a abrir espaço para que ele descubra a resposta para uma questão que o persegue: qual é o sentido da vida?
Seguimos com Roberto nas suas descobertas, e saímos, ao final do filme, com a sensação que, sim, uma vaca caindo do céu na China pode perfeitamente mudar os rumos das nossas vidas... mesmo que elas estejam do outro lado do mundo.

29.11.11

Pontes lançadas sobre o abismo dos desejos


Tese terminada. Ponto final colocado e, ato contínuo, aquela pergunta inevitável: e agora, José?
Não faço parte daquele grupo que, finalizada a etapa do doutorado, vai à caça dos concursos nas Universidades Federais. Não sei se por sorte ou azar, passei no primeiro concurso que fiz, ainda recém saída da graduação, quando ainda pensava que ser arquiteta seria passar a vida desenvolvendo projetos de residências, lojas, restaurantes.
Fui aprovada no concurso e... voilà!, me vi entrando em uma rotina de alunos com alguns poucos anos a mais que eu, aulas que me faziam - e fazem, até hoje - acordar às seis da manhã e ir dirigindo com cara de zumbi até entrar nas salas repletas de pranchetas, e, atrás de cada uma delas, uma carinha também sonolenta que me cumprimentava com aquela palavrinha que passou a me designar incessantemente: 'bom dia, prof!'
Enfim, sou professora há muitos anos. Tantos, que hoje já tenho alunos que formaram, fizeram mestrado e dividem as salas de aula junto comigo, o que, confesso, me dá um super orgulho...
Mas, e a tal da pergunta? E agora, José? Tese terminada, aulas retomadas, o que fazer com os últimos cinco anos da vida nos quais a rotina era acordar, tomar café e sentar no computador para escrever?
Ainda não tenho a resposta para isso. Mas, confesso, já sinto o enorme vazio que o término de um trabalho deste porte causa. Por enquanto, ainda tenho uma desculpa para não encará-lo, ao vazio, de frente: a defesa! E é ela que vem a se tornar o motivo deste post. Afinal, algumas pessoas acompanharam desde o início a minha ida para Paris - que foi o motivo inicial para criar o blog -, as experiências vividas lá, o meu retorno e os meses finais de escrita. Nada mais justo que, agora ao final, sejam convidadas, ainda que virtualmente, para a defesa!
Tive sorte de conseguir que fizessem parte da minha banca pessoas que leio e admiro há muito tempo: o meu orientador, claro, Robert Pechman; os professores do Instituto de Planejamento Urbano e Regional da Ufrj no qual faço o doutorado, Ana Clara Torres Ribeiro e Luiz Cesar Queiroz Ribeiro; e os professores Rubens Machado, da Eca Usp e Nelson Brissac Peixoto, da Puc Sp.
A defesa, então, será dia 16 de dezembro, uma sexta feira, às 10 horas da manhã, no Auditório do Ippur, 5º andar do prédio da Reitoria, no Campus do Fundão, Ufrj. É lá que as minhas "Pontes lançadas sobre o abismo dos desejos: uma investigação sobre o diálogo entre cidade e cinema" terão sua estrutura colocada à prova...
Mandem boas energias e torçam por mim!
Quanto a minha perguntinha com a qual iniciei o texto... de vez em quando voltarei aqui para dar notícias das respostas que, certamente, irei descobrindo para ela.

2.11.11

Pessoas admiráveis


George Tooker - Landscape with figures

De vez em quando paro para pensar em quanta gente admirável há no mundo. Em todos os tempos, em todas as culturas, temos pessoas que, em algum momento, conseguiram se elevar acima da sua própria realidade para enxergá-la mais do alto, traçando um panorama a partir desta visão mais larga.
Penso nisso de maneira abrangente, em diversas áreas: na filosofia, sociologia, física, ciências naturais. Nas artes, então, não dá nem para esmiuçar. Ser artista é, de alguma maneira, ter essa 'antena' ligada o tempo inteiro para o que está ao redor, fazendo, com suas obras - sejam elas livros, pinturas, filmes - uma interpretação (ou, à vezes, antecipação) da realidade.
Mas comecei a falar desse assunto por causa de um homem em especial. Um alemão que viveu na virada do século XIX para o XX e, olhando as profundas modificações que aconteciam na forma de vida daquele momento, resolveu analisá-las. E como o fez! Georg Simmel escreveu sobre a sociedade, o amor, o dinheiro, a moda, a arte, as formas que as pessoas têm de se agruparem e as maneiras como escolhem à quais grupos pertencer... Muito antes de ouvirmos a respeito das 'tribos' que passaram a transitar pelas grandes cidades ao final do século XX, Simmel já tinha escrito sobre elas, ainda que não as tenha nomeado desta maneira.
Ele foi o primeiro que, olhando para Berlim, aquela cidade que crescia cada vez mais rapidamente, começou a pensar em algo que ninguém havia pensado antes: 'como é que essa vida atinge a psique dos indivíduos?' ou 'quais as consequências da vida metropolitana para a subjetividade dos que dela compartilham?' Simmel via as pessoas vivenciarem situações até então inéditas, como sentar-se à frente de outras pessoas em um bonde e permanecer ali algum tempo em absoluto silêncio. Para nós, acostumados à impessoalidade dos contatos na metrópole contemporânea, pensar nisso exige um esforço, já que esse comportamento é mais que naturalizado entre os cidadãos de qualquer metrópole nos dias de hoje. Simmel pensou nestas questões e em muitas outras, construindo uma obra vasta e que se derrama por múltiplos assuntos.
E agora, um século depois, como ficam as teorias do sociólogo? A partir desta questão, está sendo organizado um seminário na Ufrj, nos dias 17 e 18 de novembro.
Pensadores de diversas áreas estarão lá, conversando sobre a obra de Simmel e o seu lugar na metrópole contemporânea. A filósofa Olgária Matos, os historiadores Maria Stella Bresciani e Robert Pechman, o psicanalista Joel Birman, a socióloga francesa Claudine Haroche, dentre outros, estarão lá dialogando sobre Simmel e, especialmente, sobre o papel do seu pensamento nas metrópoles dos dias atuais.
Para quem quiser maiores informações, há um blog sobre o evento aqui.
Eu também estarei lá. Falando sobre cinema, claro!

11.10.11

E quem disse...


...que precisamos ir muito longe para encontrar temas interessantes para fotografar?
O cronista capixaba Rubem Braga dizia que "Aprender uma cidade é na verdade uma coisa lenta. É preciso saber alguma coisa e precisamos andar distraídos, bem distraídos para reparar nessa alguma coisa...”
Dando continuidade ao raciocínio do escritor, podemos afirmar: a distração, longe de ser desatenção, pode ser muito produtiva.
Hoje acordei com o olho distraído, mas 'desperto' para aquelas cenas muito triviais que nos cercam e, às quais, normalmente não damos muita atenção. E, quase sem sair do lugar, dentro da minha casa, descobri um mundo!
Seja na cena trivial do café da manhã com o reflexo inusitado da luminária, seja em detalhes das - muitas! - construções que me cercam, na primavera que - ainda tímida - começa a aparecer, nos vizinhos conversando na varanda... meu dia ficou, de repente, mais rico em imagens.
Daí, quis compartilhar com vocês.









3.10.11

Mentirinha...

Pois é, me dei conta que, inadvertidamente, contei uma mentira aqui.
Sim, estou nos momentos finais de escrita da tese. É verdade, isso me faz ter muito menos disponibilidade para escrever coisas que não sejam relacionadas a ela. Também acabo indo muito menos ao cinema, já que este é meu tema de pesquisa e assisto muita coisa em casa, filmes pertencentes a períodos específicos (fechei a parte do cinema mudo, atravessei a dos filmes dos anos trinta e estou entrando na fase dos romances noir dos anos quarenta) que são o meu objeto de pesquisa.
Enfim, estou sim, menos disponível, em função do foco neste último capítulo da tese e da vontade de dar por encerrada essa etapa da minha vida que me fez despender tanta energia e implicou em tantas e tão profundas transformações.
Mas, apesar desta pouca disponibilidade para o mundo, a literatura... Ah, esta eu não consegui deixar de lado! Ela é oxigênio para o fogo das minhas idéias, gelo para a fervura das minhas crises de inspiração, sangue que alimenta meu vampirismo por novos pensamentos, anestésico para a sempre constante dor de viver!
Não concebo o mundo sem leitura. Sou daquelas que carrega livros na bolsa e no carro, 'just in case'. Vai que você enfrenta uma fila inesperada no banco. Vai que aquele médico demora muito a te atender. Vai que... sei lá. A impressão que tenho é que, se estou com um livro, pode acontecer de tudo e tenho um bom companheiro: o fim do mundo deve ser menos aterrorizante se você estiver com um livro prá ler quando tudo passar.
Daí, depois de todas essas explicações, me desculpo pela mentirinha inadvertida que preguei, consertando: abro mão de muita coisa, mas dos livros, não!
Essa semana comecei a ler um autor com o qual não tinha muito contato. É um começo um tanto tardio, mas, talvez por isso mesmo, extremamente prazeroso.
E daí, não resisti: trago mais uma postagem daquela série 'deve ser falta do que fazer', de tanto tempo atrás. Quem ficar curioso, o post original está aqui.
Enfim, o trecho que me fez parar desta vez é esse:

"Há lugares em que morre o espírito para que nasça uma verdade que é a sua própria negação. Quando estive em Djemila, havia vento e sol, mas isto é outra estória. O que é preciso dizer, antes de tudo, é que lá reinava um silêncio pesado e compacto - algo como o equilíbrio de uma balança. Pios de pássaros, o som aveludado de uma flauta de três furos, um patinhar de cabras, rumores vindos do céu, ruídos todos que faziam o silêncio e a desolação desses lugares. De vez em quando, um estalido seco, um grito agudo, assinalavam o vôo de um pássaro escondido entre as pedras. Cada caminho seguido, atalhos em meio aos restos das casas, grandes ruas lajeadas sob as colunas luzidias, forum imenso entre o arco de triunfo e o templo numa colina, tudo leva às ravinas que de todos os lados bordejam Djemila, baralho aberto para um céu sem limites."

O autor, tão poético e tão tardiamente descoberto por mim? Albert Camus. O livro, lindo, delicioso de ler e que me faz parar, encantada, a cada página, é 'Bodas em Tipasa'.

29.9.11

É o fim!






Final de tese. Últimas semanas de escrita. Isto significa que escrever sobre qualquer coisa que não seja aquele tema sobre o qual estamos pesquisando está fora de questão. Da mesma maneira, ir ao cinema assistir a um filme apenas para diversão, ler um livro somente para distrair a mente, pensar de maneira mais elaborada sobre qualquer outro assunto que não seja aquele que nos povoa o cotidiano e os sonhos (O 'Tema da Tese', assim mesmo, com maiúsculas)... Isto tudo não é possível, durante este período, a quem decidiu se aventurar pelas águas turbulentas de um doutorado.
Mas... alguma forma de escape há de existir! A minha, encontrei na fotografia, que compartilho com vocês. E, como nada é gratuito, freudianamente me dou conta que minhas escolhas de temas neste últimos dias foram bem sintomáticas do meu momento. Imagens de um 'tempo lento' que todos nós precisamos de quando em quando... e no qual, internamente eu me refugio quando parece que o mundo gira mais rápido do que eu consigo acompanhar.