13.7.11

Experiências que nos tornam melhores





Gosto muito de um livro do historiador italiano Carlo Ginzburg, que se chama 'Olhos de madeira'. O título é uma alusão aos olhos do boneco Pinocchio, feitos de madeira e, já que desprovidos de humanidade, capazes, por isso mesmo, de ver o que lhes rodeia sem naturalizações que, por vezes, obliteram a percepção e impedem que quem olha se maravilhe-espante-horrorize com o que o cerca.
Se Pinocchio passou toda a sua vida de boneco desejando tornar-se um menino de verdade, eu de minha parte, concordo com Ginzburg: um pouquinho de 'madeira' no olhar não faz mal a ninguém. 'Madeira' aqui, no sentido de manter, em algum nível, a capacidade de estranhamento com o que nos cerca, com coisas, acontecimentos e comportamentos que, na maior parte das vezes, tomamos como dado, como algo natural, e, ao assim fazermos, perdemos boas oportunidades de pensar sobre o que está ao nosso redor com um olhar desvendador, curioso, 'estranho'.
O geógrafo Yi-Fu Tuan diz, a respeito da paisagem, que 'a familiaridade cria a afeição ou o desprezo'. Acredito que o que Tuan afirma referindo-se à paisagem física, derrama-se para outras paisagens: as paisagens afetivas, as paisagens culturais, as paisagens dos nossos sentimentos e desejos. E que o antídoto contra esse efeito pode ser exatamente munir-se de um olhar que tente se desvencilhar um pouco do já vivido, daquilo que já se conhece e se toma como certo. Um olhar de madeira.
Essas reflexões vêm por conta de um espetáculo que assisti há alguns dias e não sai da minha cabeça desde então. Já aprendi isso: quando alguma coisa incomoda a ponto de perdurar na mente, tenho algo a aprender, a dizer ou a refletir, com ela e sobre ela.
No palco, oito bailarinos, exibindo-se durante uma hora e meia, em um espetáculo chamado 'Céu da boca'. Antes de tudo, sentada na penumbra do camarote e olhando de cima o teatro lotado, fiquei pensando o que fez aquela gente toda se vestir, se perfumar, deixar o conforto de sua casa naquele frio, para assistir à outras pessoas fazendo evoluções com seu corpo ao som de uma música. 'Mas isso é dança!', vão dizer alguns. É verdade, é dança. Mas, de verdade, o que é mesmo? O que vamos buscar quando sentamos ali dispostos a permanecer calados e quietos por um longo período de tempo, unidos e separados de todos os outros da platéia? Essas questões malucas teimavam em rodear a minha cabeça, de alguma maneira enriquecendo e contaminando a minha própria percepção do evento.
A partir de algum momento, me dei conta do que havia aberto a porta para que estas questões entrassem. E era exatamente um pequeno fator que contribuíra para tirar o véu de naturalização do meu olhar, me permitindo enxergar aquele que poderia ser um prosaico espetáculo de dança, de outra maneira. Esse fator foi o inesperado. Explico: sempre temos alguma expectativa ao nos dirigirmos a um evento deste tipo. Se vamos ao teatro ou ao cinema, esperamos ser entretidos com uma narrativa. Se vamos ver um show musical, esperamos mergulhar prazerosamente no estilo de música que escolhemos. Claro que tudo isso pode se misturar: um show musical pode ter uma narrativa embutida, assim como um filme pode basear-se muito fortemente na sua sonoridade.
E um espetáculo de dança? Será que este pode nos fazer rir às gargalhadas, pode nos comover, pode nos guiar por reflexões que digam de nossos próprios sentimentos? Essas eram as perguntas que eu me fazia - e ainda me faço, passados alguns dias. Porque o que aconteceu naquele teatro foram, na verdade, duas danças: a que rolava no palco e a que rolava na platéia. A do palco, visível e coreografada. A da platéia, invisível e inesperada: uma dança das emoções. É claro que um dos papéis da arte é emocionar, mas nunca peguei ninguém rindo às gargalhadas face um quadro em um museu (chorando já é mais comum...), muito menos em um espetáculo no qual apenas corpos se movem e nenhuma palavra é pronunciada.

Ao final, aos bailarinos cansados agradecendo os aplausos, correspondia uma platéia que parecia também ter dançado, se não em um palco, no interior de suas mentes, nas quais muita coisa foi remexida.
Me parece que ali se alcançou um dos sentido mais plenos da arte: o de comunhão, palavra que, para muito além de seu sentido religioso, traz a significação primeira de 'experienciar juntos'.
Certamente o que vimos naquele teatro naquele dia específico atingiu esse significado e essa importância: a de uma experiência coletiva. Saí dali com mais perguntas que respostas, mas com a sensação boa de que alguma parte de mim tornou-se melhor depois daquela experiência.



10.7.11

Quanto pode doer uma dor?


A pergunta soa estranha, já que pode-se pensar, a partir dela, que é possível escolher o quanto uma dor irá nos afetar. E me parece que é essa mesmo a questão do filme italiano "Saturno contro", do diretor turco Ferzan Ozpetek. Em cena, um grupo de amigos que se destaca pela diversidade, na qual misturam-se italianos e turcos, pessoas bem sucedidas e desempregados, homo e heterossexuais, casais e pessoas solitárias. Esses personagens caracterizam-se por um convívio no qual vigora um equilíbrio delicado que é subitamente rompido quando um deles sofre um grave acidente vascular cerebral e permanece internado em um hospital.
É a partir desse incidente que aquela harmonia se quebra e as questões de cada um começam a vir à tona: a fragilidade que estava tão bem escondida encontra espaço para se manifestar. E nos fazer enxergar os pontos frágeis do outro é algo que Ozpetek consegue fazer com uma mistura de delicadeza e crueldade. De situações mais óbvias, como a do casal que finalmente encontra a brecha necessária para enfrentar a falência do seu casamento que naufragou nos mares enganosos da rotina e tranquilidade, à outras, que podem até passar despercebidas a um olhar menos atento - por exemplo, a da tradutora turca que questiona tudo e apresenta solução para todos, mas não consegue se relacionar com as suas próprias questões, ou a moça que estuda astrologia e prediz os acontecimentos futuros para os amigos, mas que, na sua vida, só consegue esperar o pior, com seu 'saturno em oposição', e demais configurações astrais que lhe prediriam um futuro desastroso - são várias as situações nas quais é exposta a dor de cada um, aquilo que, lá no fundo, cada um de nós tenta esconder até de si próprio, mas que, em determinados momentos, descobrimos que é impossível.
E é precisamente aí que o filme toca de maneira mais profunda o espectador. Não no grande drama, que é a doença de Lorenzo (interpretado de maneira leve e competente por Luca Argentero) e a dor de seu companheiro, o escritor Davide (Pier Francisco Favino, em uma atuação densa, contida e excelente). Os espinhos que 'Saturno em oposição' crava em nossa sensibilidade são minúsculos e, talvez por isso mesmo, mais cruéis, já que mais difíceis de identificar. São pequenas dores, mínimas incertezas, quase invisíveis inseguranças, que, exatamente por parecerem insignificantes, nos permitem exercer a habilidade de fingir que não estão lá. Quando algo as força a vir à luz, porém, se mostram avassaladoramente destrutivas, insuspeitos pontos frágeis que têm o poder de transtornar - e transformar - as vidas.
O grande mérito do filme é tratar essas questões de maneira leve, nos conduzindo por um caminho cruel com absoluta delicadeza. Assim, a morte de Lorenzo, não é uma surpresa, tampouco algo dramático. O drama fica do lado de fora, como o diretor metaforiza tão bem na cena em que põe todos os amigos no exterior do hospital, assistindo uma desconhecida receber pelo celular alguma notícia que lhe causa uma fortíssima reação. Ao se afastarem dela em respeito àquela dor tão crua, recebem a notícia da morte do amigo.
A grande questão do filme, no entanto, é a que move todos nós: como é possível continuar? Após uma grande perda, face uma gigantesca mudança na vida à qual estávamos acostumados, como é possível seguir em frente? Ou, retomando a pergunta inicial, o quanto uma dor tem o poder de nos paralisar? A resposta, Ozpetek dá na lindíssima cena final de seu filme: o quanto nós mesmos permitirmos. A dor dura o quanto tiver que durar e, ao fim dela, não temos opção a não ser voltar a fazer parte do jogo... mesmo que seja apenas um jogo de ping-pong.


26.5.11

Você tem fome de que?



Conversando com amigas em um desses sábados à noite nos quais parece que tanto faz se você sai ou fica em casa, desde que seja com as companhias certas, surgiu o assunto, velho conhecido de Freud: 'afinal, o que querem as mulheres?', imediatamente traduzido por nós em outra pergunta, mais condizente com a nossa geração e amplamente cantada pelos Titãs no final dos anos oitenta: "você tem fome de que?"
De sapatos à abraços, de arte à atenção, de conhecimento à brigadeiros, passando por noites tranquilas, salários justos, boa companhia e bons vinhos, foram muitas as respostas que surgiram, deixando claro o grau de complexidade, não apenas das mulheres, mas dos quereres de qualquer um. Varia com a idade, com as vivências, com o momento que se atravessa.
Um ponto em comum: desejo é complicado... sempre! Desejar é se colocar no mundo, fazer valer a sua vontade e, acima de tudo, se conhecer. E quanto mais nos conhecemos, mas escapamos dos clichês armados pelo desejo socializado, domesticado, apresentado pela publicidade como legítimo, válido, aceitável, aquele que, quando alcançado, teria o poder de resolver, por si, os problemas de toda e qualquer pessoa. Parafraseando Augusto de Campos ('poesia é risco') e Guimarães Rosa ('viver é perigoso'), arriscaria afirmar: desejar é se colocar em risco. E, certamente, é perigoso. Vida e poesia, portanto.
Como sempre, a arte traduz essa questão de uma forma que vai além das simples palavras, extrapolando a filosofia, a sociologia, a psicanálise e de tudo o que já se pesquisou sobre os mecanismos através do qual o desejo se constitui. A artista plástica norte-americana Jenny Holzer, ciente dos riscos que estão implicados em assumir desejos - sejam estes de que ordem forem -, desenvolveu sua série 'Truisms', nos anos 90. Nela, a artista apropriou-se da linguagem publicitária - na forma de painéis luminosos, out-doors, cartazes, flyers - para nos alertar: "proteja-me do que eu desejo".

16.5.11

Dois pode ser um?


O quadro a nossa frente permanece escuro por um longo tempo. Aos poucos, os acorde iniciais de "You and whose army", do Radiohead, convidam o espectador: 'come on, come on...' Enquanto Thom Yorke canta, a tela clareia aos poucos e vemos uma cena na qual vários meninos têm as cabeças raspadas. A infância está se encerrando prematuramente pelas mãos de guerrilheiros. Enquanto os fios caem no chão, um deles nos olha dolorosamente - e merecia um prêmio de atuação por essa única cena - e vem o primeiro baque, na forma da frase: "A infância é uma faca cravada na garganta".
Não há como se enganar: estamos frente ao início de um grande filme. E o canadense "Incêndios", do diretor Denis Villeneuve, não nos decepciona.
É, do início ao final, do roteiro à trilha sonora, da direção à fotografia, um GRANDE filme, assim mesmo, com maiúsculas. Daqueles que, quando saímos, não conseguimos nem conversar a respeito. A mente foi violentada, a alma foi sacudida, e precisamos de um tempo para entender onde os cacos desta implosão nos atingiram e se cravaram, arrancando sangue e reflexões.
"Incêndios" é um filme que trabalha a vida em vários níveis: é um filme sobre as guerras religiosas que sacodem o Oriente Médio, em um panorama cujo sentido ético e político nos escapa. É uma história sobre um drama familiar e pessoal que separa e une uma mãe e seus filhos. Mostra o amor de dois jovens, interrompido por razões que escapam àquelas do coração. Fala de vidas que se perdem pela insignificância de um gesto errado e daquelas ocasiões nas quais um mínimo olhar pode ser a diferença entre ser subitamente morto ou permanecer vivo. Ao fim de tudo, é um filme sobre a dificuldade e a liberdade de conseguir perdoar. No limite, ele se pergunta a respeito de quantos 'incêndios' uma única vida é capaz de conter e superar. É possível se reerguer depois de ver tudo queimado ao seu redor?
O roteiro escapa à tentação de utilizar uma estratégia bem comum no cinema, que é a de construir um elo entre o filme e o espectador através da entrega de pontos essenciais a quem assiste - construindo aquilo que Arlindo Machado chama de 'olhar privilegiado', ou seja, uma compreensão do filme que apenas nós, que o estamos vendo, possuímos. Este 'privilégio' não existe. Nada nos é revelado de antemão. Vamos descobrindo, ao mesmo tempo em que os personagens, todas as filigranas com as quais Villeneuve constrói a sua trama. Isso permite - obriga, na verdade -, a que nos maravilhemos e horrorizemos junto com os gêmeos Marwan e sua mãe, os protagonistas do filme, à medida em que todo o panorama da película se constitui. E baques da história nos atingem com a mesma força que aos personagens, assim como nos transtornam as questões que o filme lança em nossa direção, talvez a parte que mais permaneça conosco ao sairmos da sala de cinema: afinal, qual o sentido de tudo isso? Para que servem, onde começam e acabam, o amor, o ódio, o perdão, os laços que unem e separam as pessoas? Quais são as fronteiras entre esses sentimentos tão viscerais e qual o preço estamos dispostos a pagar por eles? Ou, como se pergunta um dos gêmeos ao final, 'dois pode ser um'?

11.5.11

Retomando...









...um dos prazeres que me animou a iniciar esse blog: fotografar. Aqui, três opostos: montanha, praia e cidade.
Tão próximos, tão diferentes.

24.4.11

Um filme que dói


Saí de 'L'illusionniste' extremamente desconfortável. O que nem sempre é um mau sinal. Já escrevi o suficiente sobre arte e cinema nos posts anteriores para deixar claro que, para mim, este é um dos papéis fundamentais de qualquer manifestação humana que pretenda se intitular 'arte': te jogar fora da tua zona de conforto. No conforto ninguém se mexe, a sensação é algo como: 'prá que eu vou sair daqui se está tudo tão bom?'
Daí que, por vezes, estas 'sacudidas' proporcionadas por um livro, filme, ou uma pintura, instalação, grafite, são bem vindas para nos darem a oportunidade de tirar a poeira de posições já estabelecidas, opiniões formadas, coisas que já tomamos como certas.
Mas o meu incômodo com o filme do Chomet era de outra ordem. Plasticamente o filme é belíssimo, mais bonito, na minha opinião, que o anterior do diretor, 'Les triplettes de Belleville' - cujo título, aqui no Brasil, foi estranhamente traduzido como 'as bicicletas de Belleville' (triplettes refere-se ao trio de velhinhas do filme, nada a ver com as bicicletas).
Então, esteticamente ele é interessante, o roteiro toma por base algo escrito por Jacques Tati - em outras palavras, não há possibilidade de ser ruim - e a trilha sonora é linda, composta e executada em boa parte por Malcolm Ross, onde estava o meu incômodo?
Saí do filme com todas as questões que ele levanta girando na mente: um panorama no qual a arte está em decadência, submetida às leis do 'mercado' que dita o que o público irá consumir; um mundo que aponta para um desencanto absoluto, resumido pela frase única que o mágico deixa em seu bilhete de despedida ('les magiciens n'existent pas'); a ascensão do consumo como moldura que irá enquadrar todos os comportamentos sociais; e, claro, a questão maior que sempre guiou a obra de Tati: o deslocamento do sujeito no mundo. Seu Hulot é o maior exemplo disso, e Chomet pega bem o espírito do personagem mais famoso de Tati, somado à hábil transposição do físico desengonçado do diretor para o desenho da animação, e constrói Tatischeff, o ilusionista que dá título ao filme (apenas como curiosidade, Tatischeff era o nome original de família de Jacques Tati).
Conversei com pessoas que também assistiram à animação, na tentativa de localizar o que me deixava tão desconfortável com ela, e cheguei à algumas pistas: a figura de Alice, a menina que passa a acompanhar o mágico em suas andanças, a estranha passagem que - através dela - o diretor parece apontar rumo a um mundo 'adulto' no qual o encantamento não possui mais um lugar, a crueldade com que são tratados os representantes daquele velho mundo de magia e ilusão... enfim, muitas questões que se embaralham e dão, ao sairmos do cinema, a impressão que o filme continua a acontecer em nossas mentes.
Mas a melhor definição que consegui foi através da frase sucinta de um amigo, que, ao se referir ao filme, me disse: "Esse filme dói".
Cheguei à conclusão que ele tem razão. Não foi exatamente incômodo o que eu senti com a animação de Chomet. Foi dor.


17.4.11

Ai(nda) Weiwei: sunflower seeds

Ai Weiwei - Sunflower seeds, 2010

















Não resisti ao trocadilho (hor-ro-ro-so, eu concordo) com o nome do artista Ai Weiwei, sobre o qual escrevi no post anterior.
Quis voltar à Weiwei para comentar sobre a instalação que ocupa atualmente o subsolo da Tate Modern, em Londres, chamada 'Sunflower seeds'. Em toda a extensão da área, o artista espalhou um enorme tapete de pequenas peças em porcelana que imitam sementes de girassol. Novamente, como em tantas situações da produção artística contemporânea, a obra se faz na interação - e, certamente, com o esforço de compreensão - do espectador. Se entrarmos no ambiente e olharmos rapidamente aquela vasta extensão coberta de pequenas sementes, corremos o risco de nem mesmo percebermos que elas não são naturais.
E a história do enorme esforço realizado para a sua execução é interessantíssima! Weiwei mobilizou muitos moradores de Jingdezhen, uma província chinesa conhecida pela produção de porcelana, para 'fabricarem' as sementes. Foram 1.600 pessoas confeccionando artesanalmente, uma a uma, as pequenas contas malhadas em preto e branco. O processo está descrito no vídeo abaixo, que também é disponibilizado no site da Tate (Tate Modern| Current Exhibitions | The Unilever Series: Ai Weiwei ) e no local da exposição.
É claro que depois de assisti-lo, o contato com a obra se enriquece. Podemos pensar nessa banalização do consumo na sociedade atual, que faz com que as mercadorias simplesmente 'apareçam', como se tivessem apenas 'nascido' - e não tivessem passado por um processo complexo de fabricação, atrás do qual estão milhares de pessoas. Podemos pensar em um mundo onde tudo está cada vez mais homogeneizado, tornando difícil que reconheçamos as diferenças e sejamos vistos como aquele monte de sementes aparentemente iguais. Podemos mesmo pensar no paradoxo vivido pela China, um país que se tornou um fortíssimo produtor das mercadorias que o mundo inteiro consome, mas que sofre uma tensão que o coloca entre ser uma das principais molas da produção capitalista contemporânea e, ao mesmo tempo, um país com uma cultura milenar.
Vi a instalação de Weiwei em novembro passado, em Londres. A sua dimensão é impressionante, a quantidade de sementes espalhada é enorme, e o vídeo colabora imensamente para que a obra nos toque e nos diga algo. Mas, como toda produção artística de qualidade, para além de tudo isso, é a emoção que nasce no espaço obra-espectador que dá a sua real dimensão. A instalação de Weiwei certamente nos faz pensar. Mas, mais que isso, nos emociona.


16.4.11

Les adultes terribles












Template, 2007
(exposto na Documenta XII, Kassel. Uma composição com portas e janelas de templos destruídos na China)



Forever bicycles, 2003
(exposta na Bienal de arte de São Paulo em 2010. 42 bicicletas da marca mais vendida no país)














Coca-cola, 1994 (Vaso da dinastia Ham com logotipo da Cola-cola)

Snake Ceiling, 2009
(Instalação de teto realizada com 360 mochilas)




"Arte? Ah, a arte preenche nosso tempo, nos relaxa, nos diverte..." Quantas vezes já ouvimos declarações semelhantes à essa? Acho muito curioso escutá-las, e ver que muitas pessoas ainda se referem à arte como se fosse essa espécie de 'parque de diversões' para adultos.
E aí acontece um episódio como esse que vem se desenrolando nas duas últimas semanas, envolvendo o artista plástico chinês Ai Weiwei.
Weiwei é um dos artistas contemporâneos chineses mais conceituados atualmente. Sua obra, permeada por um forte caráter político, sempre incomodou ao governo chinês, e ele foi mantido, nestes últimos anos, sob uma cerrada vigilância. O artista é um excelente exemplo de uma arte contemporânea que procura, cada vez mais, uma forte interlocução com seu espectador. Podemos mesmo dizer que seu trabalho, muito mais que aquilo que é concretamente exposto nas galerias ou museus, acontece na percepção de quem entra em contato com ele, em uma interseção entre arte, estética, filosofia, política.
Weiwei já trabalhou com diversos temas. Uma de suas últimas obras foi realizar um esforço para reunir os nomes de todos os estudantes chineses mortos no terremoto de 2008. Pode parecer banal, mas a questão central é que estes alunos estavam dentro de escolas que desabaram e que, possivelmente, tenham sido construídas pelo governo chinês com a utilização de materiais mais baratos e inadequados.
E no domingo, dia 3 de abril, Weiwei foi preso, no aeroporto de Pequim. Mantido até hoje incomunicável, é acusado de ações subversivas contra o governo chinês.
Um grupo de artistas está organizando um protesto mundial contra a prisão, chamado "1001 chairs for Ai Weiwei", que consiste em, neste domingo, 17, sair de casa com uma cadeira e sentar-se à frente de um edifício governamental chinês, seja em que país for.
Há algum tempo atrás, utilizava-se a expressão 'enfants terribles' para se referir a esse tipo de artista questionador das regras já estabelecidas. O significado (algo como 'crianças levadas'), sempre teve um viés meio pejorativo, na minha opinião. Era como se esses homens, que estavam pensando e questionando muito seriamente coisas longamente colocadas como 'dadas' - ou seja, coisas postas como algo inquestionável - , estivessem seguindo apenas um certo impulso infantil de 'bagunçar' a ordem tão tranquilizadora do mundo.
O abuso e a arbitrariedade do governo chinês são, obviamente, inaceitáveis. Mas não consigo deixar de pensar que, ao menos, eles reconhecem com clareza o poder da arte. As crianças cresceram. E ameaçam governos. Foram promovidas à 'les adultes terribles'...

8.4.11

Humanidade



"O que Bruno von Falk tinha a ver com isso? Não era apenas soldado do Reich. Não estava movido simplesmente pelos interesses do regimento e da pátria. Era o mais humano dos homens. Pensou que procurava, como todas as criaturas, a felicidade, o livre desabrochar de suas faculdades, e que (como acontecia com todas as criaturas, infelizmente, nestes tempos) esse desejo legítimo era a todo instante contrariado por uma espécie de razão de Estado que se chamava guerra, segurança pública, necessidade de manter o prestígio do exército vitorioso."



O trecho acima foi retirado de um romance. Um romance escrito por uma judia. Um romance escrito por uma judia na França em 1942. Um romance escrito por uma judia que foi morta naquele mesmo ano, em Auschwitz.


Irène Némirovsky tinha 39 anos quando foi deportada para a Alemanha e morta no campo de concentração. Deixou, com a filha, as páginas manuscritas de Suite française, um livro que foi publicado 62 anos após a sua morte. Nele, Irène narra, de forma extremamente realista, o período de ocupação alemã na França durante a Segunda Guerra.
É através dos pequenos dramas, das minúsculas histórias das famílias afetadas pela guerra que a escritora torna muito palpável para o leitor o que deve ter sido este período para o cidadão comum, aquele que foi fortemente atropelado por um conflito entre nações que, aparentemente, não lhe dizia respeito.
'Suite francesa' não é um livro sobre a guerra, embora se encontre no cerne dela. É um livro sobre a natureza humana. Vemos, desfilando pelas páginas, situações diversas: a perda dos bens, a perda das vidas, a transformação das cidades e do cotidiano. As pequenas alegrias que passam a funcionar como tábuas de salvação diária, os gestos de solidariedade, as mesquinharias e pequenos conflitos que, no limite, têm o poder de revelar o pior da alma humana.
Mas o que é mais emocionante, na minha opinião, é a forma como Irène, em uma absoluta entrega à escrita, descreve os alemães, os invasores, os 'boches', como eram pejorativamente chamados pelos franceses. Aqueles que eram unanimemente odiados, no relato da escritora, são simplesmente, impressionantemente, surpreendentemente... humanos! Humanos como ela. Humanos como todos.
É o que vemos na descrição que reproduzi acima. Bruno von Falk é um soldado do Reich. Ainda assim... afirma a sua humanidade. Ele quer o mesmo que todos: ser feliz. À semelhança de Shylock - o personagem criado por Shakespeare para o 'Mercador de Veneza' -, que é judeu e reafirma a sua humanidade pela semelhança com outros homens, seus desejos, reações e aspirações, o personagem de Irène também o faz.
Irène sabia que seria deportada. Como judia, antevia que seu fim seria em um campo de concentração. No bilhete que enviou ao seu editor, referindo-se ao livro, ela escreveu: "Caro amigo... pense em mim. Escrevi muito. Suponho que serão obras póstumas, mas isso faz passar o tempo." Ainda assim, conseguiu ter a lucidez de olhar de frente o seu algoz e enxergar a sua humanidade.
Em 1960, Hannah Arendt chocou alguns ao escrever "Eichmann em Jerusalém: um retrato sobre a banalidade do mal", livro no qual relata o julgamento do famoso nazista e o descreve como o que ele realmente era: não um monstro, mas apenas um funcionário. Medíocre, pequeno, banal, cumpridor de ordens. Ela quis tratar, na verdade, sobre a capacidade do Estado de transformar o exercício da violência homicida em um ato burocrático, através da sua tradução em gráficos, estatísticas e metas a serem atingidas. Arendt mostra, através de Eichmann, como as pessoas passam a ser agentes neste processo e não se sentem responsáveis, escondidas atrás da velha e puída cortina de 'eu estava cumprindo ordens'.
Irène Némirovsky, vinte anos antes, conseguiu, de maneira comovente, transformar isso em arte.

7.4.11

Epígrafes


Adoro epígrafes. Acho que elas fornecem um 'mapa' para quem vai começar a ler um texto, seja este de que ordem for: conto, crônica, ensaio, artigo, romance.
É como se quem escreveu o texto tentasse condensar o que irá dizer nas tantas páginas que se seguem naquela frase inicial, naquele trecho, naquela citação. Para mim, é como se ele me dissesse: 'Olha, o que vou tratar nesse monte de letrinhas que estão à sua frente é mais ou menos isso aqui. Dá uma olhada para ver se te interessa...'.
Acho interessante verificar a forma como, de acordo com as mudanças na obra de um autor, ele também vai modificando o tom das suas epígrafes, e vice versa. Um dos escritores brasileiros que mais gosto é o carioca Rubem Fonseca. E adoro a habilidade com a qual ele lança mão das epígrafes nos seus livros! Cada uma delas dialoga com as que lhe antecedem e sucedem, dando origem quase a uma narrativa à parte.

Mas, na verdade, esta conversa toda é por conta de um livro lindo, que possui uma das epígrafes mais bonitas que já li, e que diz:

"A missanga, todas a vêem.
Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as missangas.
Também assim é a voz do poeta: um fio de silêncio costurando o tempo"

A epígrafe abre o livro de contos 'O fio das missangas'
, do escritor moçambicano Mia Couto.