30.1.12

E se?...


... uma vaca caísse do céu?
Um casal de namorados está no meio de um rio, em um barco, passeando. O rapaz canta para a moça. Embora não entendamos nem uma palavra, já que eles são chineses, percebemos que ele expressa o seu amor por ela com a música. Os dois trocam um olhar carinhoso. Subitamente, uma vaca cai em cima do barco. Fade out.
Quem assistiu, reconhece nessa descrição o início de 'Um conto chinês' (Un cuento chino), filme de Sebastian Borentszein. Com bela fotografia, direção segura e excelentes atuações, é uma produção de 2011, assistida com um certo atraso por mim.
A maioria das críticas e sinopses a respeito do filme defende que a sua principal questão seja a respeito da comunicabilidade / incomunicabilidade humanas, de sentimentos que são universais a despeito das diferentes nacionalidades, de vidas que caminham sem direções definidas e, um dia, por um acaso, se cruzam. Tudo isso é verdade. Mas, ainda no impacto de ter acabado de assistir ao filme argentino, me peguei pensando que, no fundo disso tudo, o que Borentszein faz com sua narrativa é nos lançar uma questão sobre o sentido da vida.
Uma frase muito conhecida afirma que uma borboleta batendo as asas em um dos extremos da terra tem o poder de causar uma tempestade do outro lado. A sensação que fiquei, ao longo do tempo em que assistia a história, é que o diretor quis construir uma alegoria desta frase. Para isso, ele encadeia - a partir de uma vaca que despenca do céu - acontecimentos diferentes em vidas diferentes, que seguem, em países diferentes, cada uma ao seu ritmo mas que, um dia, se chocam. Do argentino Roberto, cuja vida segue procedimentos repetitivos que beiram a obsessão e caminha sempre no mesmo ritmo, com sua rotina de todos os dias que acontece de forma imutável, e do chinês Jun, que vai parar em uma país estranho depois de ver a tal vaca caindo do céu na direção de seu barco. Chinesinho dez, rotina zero. Do encontro entre eles se constrói o filme.
Curiosamente, ficamos sabendo, ao final do filme, que a notícia é verdadeira: em uma província chinesa, o piloto de um avião descontrolado se viu obrigado a livrar-se da carga de duas vacas, e uma caiu em cheio sobre um barco pesqueiro, afundando-o. O roteiro partiu dessa notícia - que é apresentada em sua versão original depois da subida dos créditos do filme - para imaginar os seus possíveis desdobramentos.
O argentino Roberto supre a sua vida enfadonha com novidades colecionando recortes de jornal a respeito de acontecimentos inusitados. O dia em que um 'acontecimento' real aparece na sua frente, na forma de um rapaz chinês que 'cai' de um táxi em Buenos Aires, isso tem para ele o impacto de uma vaca caindo na sua cabeça. A partir daí, a sua vida sai dos eixos tão cuidadosamente construídos e preservados por ele e começa a abrir espaço para que ele descubra a resposta para uma questão que o persegue: qual é o sentido da vida?
Seguimos com Roberto nas suas descobertas, e saímos, ao final do filme, com a sensação que, sim, uma vaca caindo do céu na China pode perfeitamente mudar os rumos das nossas vidas... mesmo que elas estejam do outro lado do mundo.

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