17.11.16

David Foster Wallace como experiência religiosa



Gosto muito do sentido da palavra religião que ressalta o elo entre nós e a transcendência: re-ligare. Embora muitos aleguem que essa origem etimológica da palavra religião é equivocada, apenas uma aproximação vocabular falsa repleta de beleza e boas intenções, nesse caso, prefiro ficar com essa possível mentira. Talvez pelo romantismo de acreditar que uma boa religião - qualquer que ela seja - deva mesmo promover essa ligação: os homens e seu deus - qualquer que ele seja.

Na prática, isso acaba por não fazer muito sentido quando - falando no sentido estrito - não seguimos nenhuma religião, o que é exatamente o meu caso. O fato de não seguir nenhuma doutrina, porém, não nos cala essa necessidade de experimentar a ligação com o Outro, com o mundo, com a natureza, com as experiências de outrem. Esse anseio cada um de nós tem. Podemos supri-lo nas relações amorosas, nas relações de afeto com pais, filhos e grandes amigos, nos nossos trabalhos. Há mesmo aqueles que o resolvem através do consumo ou outros para quem essa ligação com o mundo fora de si é insuportável, causando dor absoluta. Esses, por vezes, a calam no entorpecimento das drogas ou dos excessos de qualquer ordem.

Sempre fui do tipo que estabelece essa ligação com o mundo e com o Outro através da manifestação artística. Sou aquela que você vai encontrar despejando lágrimas ridículas em museus, espetáculos de dança ou em finais de livros que nada têm de tristes. Não é a tristeza que possa estar relatada ali que me toca. O que me emociona profundamente é a capacidade do outro criar algo que funciona como uma ponte entre ele e eu, que nos liga, embora nunca tenhamos nos conhecido, embora às vezes as dimensões espaço-temporais que tenhamos habitado nada tenham em comum.

Se você conhece um pouco do escritor que menciono acima, você já sabe que o título desse post foi tirado de uma de suas crônicas, "Federer como experiência religiosa", na qual Wallace relata a experiência de assistir à final de Wimbledon entre o tenista suiço Roger Federer e o espanhol Rafael Nadal. Eu não jogo tênis. Não entendo as regras do tênis. Nunca tive vontade de praticar essa modalidade de esporte. Mas me comovi com o texto de Wallace da mesma forma como me comovi com o seu relato da morte de uma lagosta mergulhada em água fervente em "Pense na lagosta".

Essa, para mim, é a marca de um bom artista, seja em qual área ele atue: ele te leva para dentro do mundo dele. Calder te leva pra flutuar com seus móbiles; Van Gogh te envolve com a noite estrelada; Kaufman e Jonze te fazem acreditar nos absurdos que colocam na tela enquanto brincam de ser John Malkovich. Como dizia Hitchcock, o trabalho da arte é uma ilusão e a qualquer momento o espectador (de cinema, no caso) pode segurar os braços de sua cadeira e se lembrar que o que está na tela não é real. Mas, continuava o cineasta, se ele fizesse o seu trabalho direito, esse espectador se esqueceria de que a sua cadeira tinha braços nos quais segurar.

Essa é uma boa metáfora para o trabalho de Wallace: ele faz com que os seus leitores se esqueçam. De que não gostam de tênis, de que não comem lagosta, de que nunca leram Kafka ou nunca fizeram um cruzeiro de navio. O texto dele te imerge de maneira tão completa, que, na verdade, essas coisas deixam de ter importância face aos diversos níveis de interpretação possíveis às palavras.

Nunca tinha ouvido falar do escritor até pouco tempo atrás, quando assisti a "O final da turnê" (James Ponsoldt, 2015). No filme, David Lipsky, jornalista da revista Rolling Stone fica sabendo da morte de Wallace e relembra a reportagem que fez, anos antes, acompanhando o final da turnê de promoção de "Infinite Jest", o livro que o tornou muito conhecido (Graça infinita, no Brasil). Na narrativa do filme, vemos um cara cheio de incoerências, cheio de manias, cheio de fragilidades. Como todos nós. Um sujeito cativante pela sua humanidade, que anda sempre com uma ridícula bandana para "evitar que sua cabeça exploda". Levei mais ou menos até a metade do filme (que encontrei zapeando por acaso na madrugada) para entender que aquele cara era um personagem "real" e que a narrativa se baseava na experiência de Lipsky com um escritor que havia, realmente, se enforcado no quintal de casa.

No dia seguinte comecei a ler "Graça Infinita", um livro extenso, um livro irritante, um livro instigante. Mais de mil páginas de sarcasmo, ironia fina, inteligência.

Mas foi com "Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo" que encontrei Wallace em sua mais afiada forma. O livro reúne algumas crônicas do autor sobre assuntos diversos: Federer, a lagosta, uma feira municipal, um cruzeiro de navio, Kafka, e o lindo discurso de paraninfo "Isto é água". Mergulhei em cada um desses assuntos para, ao término, ter que 'voltar à tona' e me lembrar, como em um episódio de sonambulismo, quem eu sou. Continuava sendo eu, mas com alguns pedacinhos que incorporei de cada uma das leituras. Esses pedacinhos intensificaram a minha ligação com o mundo. Daí a comparação dessa leitura com uma experiência religiosa, daquelas que te fazem entender melhor o lugar que você ocupa e o mundo que te cerca.

Fico, depois de travar contato com a obra de Wallace, com aquela sensação de quem chegou tarde demais na festa, sabe como? Como assim, isso tudo acontecia há mais de uma década e eu não estava sabendo?...Como não lamentar que um cara que te faz rir às gargalhadas com uma nota de rodapé não esteja mais em atividade? (aliás, essa é uma dica para possíveis futuros leitores: nunca, NUNCA deixe de lado uma nota de rodapé sem lê-la). Como entender que alguém proveniente de outra cultura e outros valores, toque tão profundamente em questões que são tão caras a você? (e, mais sério ainda, através de temas que não te interessam em absoluto). Saio da leitura de Wallace com essa sensação: fui ali, dei um mergulho e, quando voltei, o mundo não era mais o mesmo.



20.9.15

Será que ela volta?



Muito já foi dito sobre "Que horas ela volta?", filme da diretora Anna Muylaert. A ótica dos estratos sociais em constante conflito - seja esse silencioso ou barulhento - é, certamente, a mais visível no roteiro. A profusão de críticas, resenhas ou reportagens a respeito dessa faceta da história faz com que entremos no cinema com aquela sensação de que conhecemos a trama. E conhecemos mesmo! Se ela não aconteceu nas nossas casas, aconteceu nas casas de parentes ou amigos: a empregada doméstica que é visível/invisível. Que é pessoa/não pessoa. Que é um dos elementos da engrenagem que faz aquela dinâmica familiar funcionar, mas tem espaços bem delimitados nos quais deve transitar.

Apesar de todas essas questões serem as mais visíveis, foi outro aspecto do filme que me chamou a atenção. Saí do cinema com a ideia que o filme de Muylaert é, além de um dedo na ferida da nossa desigualdade social, uma história sobre mulheres e escolhas. Melhor dizendo, sobre mães e escolhas.

Val, a personagem lindamente interpretada por Regina Casé, fez uma escolha quando deixou Recife rumo à São Paulo em busca de emprego. Nessa escolha, deixou suas raízes e sua filha para trás. Em troca, além do emprego de doméstica da residência sofisticada no Morumbi, ganhou um filho postiço: Fabinho, filho da sua patroa, Bárbara. Essa, por sua vez, também fez as suas escolhas: escolheu a carreira, o sucesso, o glamour das entrevistas e das festas. Em troca disso, deixou para trás o casamento e a maternidade. Embora tenha marido e filho, estes são apenas personagens sem consistência na sua vida. Homens enfraquecidos procurando colo e compreensão. Aliás, esse é um aspecto fundamental do filme: ele é um enaltecimento às mulheres. Val, Bárbara e Jéssica são os pontos de apoio a partir dos quais o filme se desenvolve. Os personagens masculinos são fragmentados, incompletos, inconsistentes, que parecem dar eco contínuo à indagação jogada pelo título do filme: que horas ela volta?




As escolhas de Val e de Bárbara parecem consolidadas. Até a chegada de Jéssica. Filha que foi deixada em Recife por Val, ela vai à São Paulo fazer o vestibular para arquitetura. E a sua chegada será o elemento que irá desequilibrar tudo que parecia tão estável. Jéssica é a filha de Val, mas não apresenta o comportamento que seria esperado dela, ou seja, não se restringe aos ambientes e às conversas 'permitidos' à 'filha da empregada'. E por que deveria? Ela não se vê naquele papel. Deixada com uma tia no Recife, via a mãe chegar, de tempos em tempos, bem vestida e cheia de presentes. Nunca compreendeu exatamente que tipo de vida a mãe levava em São Paulo e não parece disposta a se enquadrar no que esperam dela.

Descobrimos, ao longo do filme, que Jéssica também fez uma escolha. Ao ir para São Paulo, deixou em Recife uma parte de si. Escolheu a possibilidade de cursar arquitetura, mas acabou por reproduzir em sua história aquilo que mais a fazia sofrer na relação com a mãe. 

Acontece toda uma sequência de conflitos ao longo do filme, causados pela inobservância de Jéssica daquilo que não está escrito, mas que se espera que todos saibam: há uma série de regras não ditas a partir das quais espera-se que o outro se comporte. E esse é, com certeza, o ponto central da trama. Mas foram as escolhas que ficaram comigo. Foi sobre elas que me vi pensando ao sair do cinema. Às vezes temos noção de que estamos escolhendo. Mas, em outras situações, só percebemos depois que essas já foram feitas, o tempo passou e não há mais como voltarmos atrás.

Nesse sentido, me parece que a personagem mais penalizada é justamente aquela que parece a mais privilegiada. Talvez Bárbara seja, das três mulheres, aquela que menos clareza teve nas escolhas que fez e aquela que tem menos possibilidade de recuperar o que perdeu. Ao deixar o filho e o marido no caminho - não com o corte seco da partida como fizeram Val e Jéssica, mas nos minúsculos gestos diários, nas pequenas ausências rotineiras, nos olhares e carinhos esvaziados - Bárbara construiu um caminho no qual os retornos são mais difíceis. Assim, se o final do filme nos traz uma certa 'redenção' através da mãe e da filha que tentam, aos poucos, voltar a se conhecer e recuperar o seu relacionamento, também nos traz a tristeza (ou a sensação de 'vingança' para alguns) da mulher que parece ter tudo de melhor em sua vida material e profissional, mas é absolutamente desprovida de relações verdadeiras de afeto.

Somos, sempre, reféns das nossas escolhas. Às vezes elas são feitas de forma consciente. Outras vezes, não. Uma coisa é certa: é verdadeiríssimo aquele ditado que diz: "fazemos nossas escolhas e nossas escolhas nos fazem". Val e Jéssica 'foram', mas tiveram a possibilidade de 'voltar', mesmo que um pouco tarde. Para a personagem Bárbara, a indagação parece ser: será que ela volta?




25.6.15

Um livro e um filme

A relação entre mãe e filha é uma das coisas mais bonitas do mundo. Desde que elas continuem engessadas nesses papéis: mãe. filha. Quando uma delas se mexe e, além de mãe ou filha, assume o seu lado mulher, a coisa geralmente desanda. Ao menos por um tempo.

Já passei daquela fase em que a gente precisa 'apagar' simbolicamente os pais dentro da gente para que passemos a existir como adultos autônomos. E, por experiência própria, posso afirmar: não é um momento fácil. Quem trata disso é Freud, que afirma justamente essa necessidade de "matar" aqueles que nos geraram para, a partir daí, caminharmos com as nossas pernas. Ah, falar é fácil, 'seu' Freud, fazer é outra história... Esse caminho é pautado por muitas lágrimas, muitos desentendimentos, muita insegurança. Apesar disso, é um caminho absolutamente essencial para todos: pais e filhos. Para que atinjam algum tipo de verdade - e respeito - na sua relação como adultos. Sempre ouço calada e com muita desconfiança aquele discurso bonitinho que afirma 'minha mãe é minha melhor amiga', etc... especialmente se vem de pessoas muito jovens. Na minha opinião, se isso acontece, a transição ainda não se deu. As duas ainda não saíram daqueles papéis que, acreditaram, seriam eternos: mãe e filha. Quando a filha se torna uma mulher, ou, em casos mais raros, quando a mãe deixa seu papel de mãe ser ofuscado por seu lado mulher acontecem os inevitáveis embates. Que, depois de superados, até podem dar lugar à amizade verdadeira. Mas com a relação - e os papéis - redefinidos.

Digo isso à propósito de duas obras com as quais tive contato recentemente: um livro e um filme.

No romance "Uma Duas", a jornalista Eliane Brum fala disso, lindamente, poeticamente, visceralmente: uma mãe e uma filha. Uma mãe que tentou, por todos os meios ao seu alcance, que a filha continuasse 'filha' eternamente. Uma filha que se perdeu da mãe - e, consequentemente, de si mesma - no seu processo de virar mulher. Um antagonismo que incomodará, acredito, especialmente às mulheres que lerem o romance. Muitas se reconhecerão nas situações extremadas, exageradas, absurdas traçadas por Brum. Não porque já as tenham, efetivamente, vivenciado. Mas porque os dramas desenhados no romance as lembrarão dos seus próprios, das suas buscas, dos seus medos, das suas raivas (sim, que somos todas humanas e nada mais humano do que sentir raiva de quem, naquele momento, te oprime), dos seus ressentimentos. Saí do romance abalada, mexida, incomodada, mas com uma certeza: ele foi escrito por quem sabe do que fala. Brum leva a sério aquela frase que diz que a literatura não é feita de amenidades. Definitivamente, não há nada ameno em "Uma Duas".

O livro começa na voz da filha, que narra a história do único ponto de vista possível: o seu. Sob aquele prisma, a mãe é um ser nojento, dominador, perverso, doentio. Vamos seguindo pelo romance e, a certo ponto, essa mãe acha a sua voz e começa a nos apresentar a sua versão. E aí entendemos que, como tudo na vida, a mesma história será diferente a depender de quem a narra. Nos deparamos com uma mãe frágil, despreparada, imatura, insegura que, por sua vez, se reporta a um pai opressor, dominador, etc... Provavelmente, se a esse homem fosse dada uma voz, descobriríamos alguém com as suas próprias mazelas, inseguranças, medos e traumas. E por aí a história se repete: cada um de nós tentando lidar o melhor que pode com seus próprios tropeços, fragilidades e dificuldades. E nem sempre conseguindo.

A outra narrativa é a de um filme, o norte americano "Pássaro branco na nevasca" (White bird in a bizzard, 2015), de Gregg Araki. Nenhuma crítica que li sobre o filme apresentou segurança na hora de classifica-lo: drama, terror, comédia, suspense foram algumas das categorias nas quais ele foi inserido pelos diversos sites que o analisam. E, realmente, ele não se insere com clareza em nenhuma dessas classificações. Vemos na tela um binário mãe / filha vivido pela lindíssima Eva Green e por Shailene Woodley, no papel da filha que está virando mulher. Somos apresentados à relação perfeita que existia entre as duas enquanto Kat (o nome da personagem) era o 'bichinho' da mãe. À medida que a menina cresce, e o papel de mascote vai sendo deixado para trás, a mãe envelhece. Percebemos então a dificuldade com que Eve, a mãe, atravessa esse processo. Casada com um homem aparentemente apagado (interpretado por Christopher Meloni, ótimo em sua contida interpretação de um homem submisso, em especial se lembrarmos do mesmo ator como o policial charmoso e durão da série SVU), ela é exuberante demais, bonita demais, fogosa demais, para se contentar em ser apenas uma esposa e... mãe.

Ao contrário da situação mais corriqueira em que a filha recusa-se a permanecer em seu papel de 'filha' e deseja tornar-se mulher, no filme de Araki é a mãe que se recusa a engessar-se em seu papel materno, e abandonar a sua porção mulher que, à medida em que a filha cresce, se vê cada vez mais ameaçada. Para além dos acontecimentos que pontuam a narrativa - o sumiço da mãe, a tentativa da filha de lidar com isso, o pai que, aos poucos, vamos descobrindo ser diferente daquilo que imaginávamos à princípio - a questão inicial é a mesma do romance de Brum: a transição, sempre difícil, dos papéis de mãe e filha para os de duas mulheres que - apesar de serem mãe e filha (e não por causa disso) - se amam.

Não posso dizer como isso se dá na relação entre pai e filho, mas arriscaria dizer que existem semelhanças, muito embora com as mulheres seja (sempre!) mais complicado. Mulheres falam mais, sentem mais - ou expressam mais o que sentem - e dramatizam mais. Em um processo que não é fácil, essas características têm o poder de potencialização. A transição do papel de filho para o de adulto nos transforma - e aos nossos pais - em, literalmente, outras pessoas. E nem sempre essas pessoas diferentes conseguem manter a mesma dinâmica na relação. Ou encontrar uma dinâmica possível para que essa aconteça.

O mundo se mexe e se transforma e nós nos mexemos e nos transformamos junto. E um dos movimentos mais bonitos me parece ser aquele que nos permite a reaproximação, em novas bases, com aqueles que nos deram as nossas primeiras referências, a nossa segurança no mundo, os nossos valores. Nas palavras de Daniela Ervolino, "O que nos possibilita de sermos adultos inteiros, psicologicamente sadios e maduros, é justamente, após nos libertar das "amarras dos pais" e nos tornarmos independentes, conciliar-se com eles. Isso mesmo, primeiro se libertar para depois se aproximar, ainda que simbolicamente. Conciliar-se simbolicamente com pai e mãe, é uma coisa extremamente necessária, difícil e profunda, pois deve acontecer num nível ainda mais profundo, no nosso "inconsciente" infantil, não na consciência adulta de hoje que sabe justificar cada mágoa ou falta de nossos pais." 

Ser capaz de fazer esse movimento é algo que exige de nós maturidade, compreensão - conosco e com o Outro -, segurança. E nos move na direção daquilo que verdadeiramente importa: o amor. Acredito mesmo que seja aí que a transição para o mundo 'adulto' se complete e que nós estejamos, finalmente, livres para amar aquelas pessoas sem os pesados laços da obrigação. Sermos filhos sem sermos devedores. E, assim sendo, nos permitirmos exercer o amor puro e límpido, liberto das 'cracas' que se grudaram a ele durante os anos de navegação juntos.

No romance de Brum, apesar de todo o peso - excessivo ao ponto do quase doentio - da narrativa, tal transição acontece lindamente, perto do final da vida da mãe. No filme de Araki não há espaço para que isso ocorra. E talvez seja essa falta, mais do que os acontecimentos trágicos de toda a narrativa, que deixem, ao final do filme, uma sensação de tristeza muda em seus espectadores.




   


23.3.15

Um dos deuses mais lindos


A música de Caetano Veloso resume bem o que penso do tempo: ele é mesmo um dos deuses mais lindos. Presenciar a sua passagem, seja na gente, seja no mundo e nos que nos rodeiam é, de certa maneira, algo mágico.

Foi esse tempo "compositor de destinos", como diz Caetano, que presenciei nos últimos dias. E fiquei, entre feliz e emocionada, a cismar sobre isso que nos atravessa e arrasta a todos e que só prestamos atenção em ocasiões raras.

Explico melhor: há quinze anos atrás, mal acabando de cursar o mestrado, fui professora de alguns jovens que entravam em um curso de graduação. Futuros arquitetos, cheios de garra e vontade, cheios de vida e futuro, cheios de teorias e desejo, de dúvidas e certezas. Convivi com eles alguns anos ao longo do curso, presenciei o amadurecimento, os laços se formando, as brigas, os afetos, as conquistas. Participei da formatura, ganhei presentes, ganhei homenagens, ganhei colegas de profissão e, mais que isso, ganhei amigos.

Dez anos se passaram desde aquele final de curso. Embora tenhamos mantido o contato eventual, nunca mais havia encontrado com todos reunidos, nem sabia detalhes da vida de cada um. E nesse último final de semana, algo mágico aconteceu: uma reunião de vidas, de passado e de afetos. Uma comemoração dos dez anos de formatura. Uma ponte no tempo, que aproximou quem éramos há dez anos atrás de quem somos hoje. Passamos um final de semana juntos: ouvimos as histórias de todos, ficamos conhecendo maridos e esposas, filhos e carreiras uns dos outros.

Uma situação desse tipo causa sempre uma mistura de sentimentos: nostalgia, saudade, felicidades e tristezas. Vemos quem nos tornamos, sentimos orgulho por algumas coisas, pesar por outras, e, mais forte que isso, entendemos o que esse 'deus dos mais lindos' fez conosco. Conversamos sobre as dificuldades atravessadas: os falecimentos, as separações, as perdas, as decepções, os percalços de saúde... E as coisas boas, claro! Os casamentos, os filhos, as viagens, a carreira, as conquistas. Tanto tempo depois, a 'capa' de professora que conferia uma certa hierarquia já não existe mais, eu virei apenas mais uma colega no grupo, e essa sensação de que continuamos nos 'encaixando' - apesar de todas as possíveis diferenças - é muito boa! 

No final dos dias juntos, risadas e vinhos atravessados, constato o quanto o tempo foi generoso com todos. Dificuldades existiram, certamente, para todos. Mas a percepção que as atravessamos, as deixamos para trás e caminharemos para outras dificuldades e felicidades é o que fica de mais forte desse encontro. Dez anos se passaram e nós... continuamos aqui.

No final das contas, o mais legal de uma situação desse tipo, é que ela nos faz parar para pensar: qual é o sentido disso tudo mesmo? Nascemos, estudamos, batalhamos por uma carreira, construímos famílias e empresas, tentamos alcançar o 'sucesso' (seja lá o que isso possa representar para cada um), e tudo isso para que? 

Quanto mais o tempo passa, mais me certifico de que só há uma resposta a essa questão. Não consigo pensar em nada mais importante do que a troca de afetos como objetivo principal da vida. Nada me parece mais enriquecedor do que o convívio com o outro, o olho no olho, a gargalhada compartilhada, a solidariedade na hora certa. 

Essa 'viagem no tempo' que fiz - e na qual, mais do que encontrar com amigos, encontrei também com uma Eliana de quinze anos atrás - só me confirmou isso. E me fez sentir alegria, por mim e por cada um dos que estavam lá, e que conseguiram abrir uma brecha nos compromissos, nas obrigações familiares, na vida que segue, para olhar um pouquinho para trás, pedindo licença a esse tempo que pode ser tão cruel, e fazendo um passeio ali no passado para reencontrar com amigos de um outro momento. E, mais importante, para o grande reencontro: aquele consigo mesmo. 

Que venham mais dez anos e outros encontros!







30.11.14

Um livro escrito para mim




Estou lendo um livro. Estou lendo um livro escrito para mim. Não, ele não foi escrito para mim de verdade. Ele foi escrito para qualquer um que esteja disposto a lê-lo. Mas, a sensação que eu tenho é que a sua autora - a marroquina Muriel Barbery - entrou dentro de mim. Abriu portas, gavetas, revirou cortinas e sentimentos, afastou poeiras e sensações, escolhendo apenas alguns itens. Com eles, escreveu esse livro.

Nele, os personagens dizem, com frequência, coisas que eu diria. 

Pior, eles pensam coisas que eu penso - e não digo à ninguém além do espelho. 

E, ainda pior (!), eles dizem e pensam coisas que eu não digo nem penso (ou não pensei até o momento), mas que são tão 'eu' que me identifico imediatamente, perfeitamente, plenamente. E essas coisas explicam sentimentos, sensações, preferências e atitudes com uma acuidade rara.

Ler um livro assim é uma experiência curiosa: no início é agradável, a gente se sente um pouco 'acompanhada' no mundo. Uma sensação de 'ah, olha só, esse personagem é que nem eu...'. Você avança e essa sensação vai dando lugar a um incômodo, a uma impressão de quem alguém... invadiu. Sua casa, seus livros, e, mais sério, você próprio. 'Mas não é possível!', me pego pensando a cada página, entre divertimento e incômodo. Os personagens de Barbery não têm nada em comum - na sua vida cotidiana, nas suas ocupações ou aparência - comigo. Nem uns com os outros, na verdade. Mas isso apenas acentua a sensação de identificação verdadeira.

Daí hoje, eu - que não consigo ver uma orquestra sem ter meus olhos se enchendo involuntariamente de lágrimas, e nunca pensei muito no motivo disso além daquela óbvia explicação de que 'ah, é tanta gente que se une para fazer algo tão bonito...' -, dou de cara com uma passagem que trata sobre um coral. E a autora coloca a minha sensação tão acuradamente no pensamento da sua personagem, que não resisti: retomei a escrita aqui no blog, abandonado há tanto tempo, tadinho, para compartilhar esse trecho:

"É sempre um milagre. Todas aquelas pessoas, todas aquelas preocupações, todos aqueles ódios e todos aqueles desesperos, todo aquele ano de colégio com suas vulgaridades, seus acontecimentos menores e maiores, seus professores, seus alunos heterogêneos, todas essa vida em que nos arrastamos, feita de gritos e lágrimas, risos, lutas, rupturas, esperanças desfeitas e chances inesperadas: tudo desaparece de repente quando os coristas começam a cantar. O curso da vida se afoga no canto, há uma impressão de fraternidade, de solidariedade profunda, de amor mesmo, e isso dilui a feiúra do cotidiano numa comunhão perfeita. Até os rostos dos cantores ficam transfigurados; não vejo mais Achille Grand-Fernet (que tem uma linda voz de tenor), nem Déborah Lemeur nem Ségolène Rochet nem Charles Saint-Sauveur. Vejo seres humanos que se entregam ao canto.
É sempre a mesma coisa, tenho vontade de chorar, fico com a garganta apertada e faço o possível para me controlar, mas às vezes chego ao limite: mal consigo me reter para não soluçar. Então, quando tem um cânone, olho para o chão, porque é muita emoção ao mesmo tempo: é muito bonito, muito solidário, muito e maravilhosamente comunicante. Não sou mais eu mesma, sou uma parte de um todo sublime a que os outros também pertencem, e nesse momento sempre me pergunto porque não é essa a regra do cotidiano em vez de ser um momento excepcional de coral.
Quando o coral para, todos batem palmas, com o rosto iluminado e os coristas radiantes. É tão bonito.
Finalmente fico pensando se o verdadeiro movimento do mundo não seria o canto."

E, ao final do trecho, entendo melhor a minha comoção sempre que presencio uma orquestra, um coral, até uma banda marcial. Essa sensação em mim sempre foi tão forte que a coloquei mesmo como abertura da minha tese, para servir de metáfora ao funcionamento das cidades: as sinfonias urbanas. Na música produzida por grandes grupos e nas cidades é necessário haver o sentido de coletividade como fio condutor.

O livro - que, me dou conta, não falei o nome até agora - chama-se "A elegância do ouriço". Essa é uma referência a uma das personagens, uma mulher aparentemente muito dura e muito simples, mas dotada de uma delicadeza e sofisticação raras. Fico pensando que é também uma boa metáfora social. Somos, na verdade, todos meio 'ouriços': duros e espinhosos por fora (e tanto mais duros e espinhosos quanto o forem as cidades nas quais vivemos), mas temos uma elegância interna que mostramos para muito poucos.

E permaneço aqui, matutando na pergunta da escritora, que retomo sempre que presencio algo muito bonito realizado de forma coletiva: porque não é essa a regra do cotidiano?



11.6.14

A moça, a janela, a cidade, o sonho

Essa moça sempre me fascinou: está em um ambiente acolhedor e elegante, mas olha pela janela. Está ali, mas deseja outra coisa. Ela quer a cidade. 

Gustave Caillebotte - Interiores,  1880

O pintor francês Gustave Caillebotte fez a obra 'Interiores' em 1880, mas boa parte de sua carreira foi dedicada a esse tema: pessoas que, de janelas, varandas, sacadas, descobrem a efervescência do espaço urbano. 

Gustave Caillebotte - Um homem no balcão,  1880
Gustave Caillebotte - Homem no balcão,  1880

Gustave Caillebotte - Homem na janela,  1875
Gustave Caillebotte - Varanda, Boulevard Haussmann,  1880


É interessante questionarmos: porque essas pessoas não estão nas ruas da cidade? Se querem descobri-la, por que ainda permanecem em suas janelas e varandas? Vemos, nas telas, uma profusão de personagens que nos dão, literalmente, as costas, e dirigem sua atenção às ruas de Paris.

É importante contextualizar: a cidade passava, no momento mesmo do desenvolvimento das obras de Caillebotte, por toda a reformulação feita por Haussmann em seu espaço. Prédios antigos eram demolidos, boulevares eram abertos à força em seu traçado, enormes praças e parques pontilharam seu mapa. Era como se Paris se despisse de uma roupa velha e vestisse essa nova pele, repleta de prédios renovados, amplas avenidas, vitrines brilhantes e iluminação artificial. No meio disso, os seus habitantes, olhavam embasbacados para a 'sua' cidade, que não era mais tão 'sua' assim. Talvez isso explique esse receio, esse afastamento temporário, como se as pessoas ainda não se sentissem seguras em ir diretamente para as ruas observar a cidade e sua nova rotina urbana.

A moça do primeiro quadro sempre me atraiu. Qual a ousadia necessária para o pintor colocá-la ali, acintosamente de costas para sua casa, seu marido, sua vida? Impertinentemente de costas para nós, os observadores da tela, aqueles que deveriam ser a sua principal preocupação? Não, o que Caillebotte nos diz com essa moça não é 'olhem para a minha pintura'. É 'olhem para a cidade'!

Há tempos sigo o conselho do pintor francês e olho para a cidade. Para as cidades, de forma geral. Tal como a moça da pintura, olho para elas através de uma janela. Essa janela pode ser a literatura, a publicidade, a arte, ou, mais frequentemente, o cinema. Minhas muitas janelas me permitem uma aproximação maior do urbano do que se eu o olhasse diretamente. Aquela moça da pintura,... aquela moça sou eu.

Escrevo tudo isso à propósito de um sonho que se concretizou ontem. Estava trabalhando em casa, escuto um grito lá fora: 'correio!'. Adoro morar em uma casa, por essas pequenas coisas: conheço o carteiro; o moço que varre a rua e me pede para encher a sua garrafinha de água todos os dias; o lavador de carros que está sempre por aqui, o vizinho de frente que em época de jambo tem que levantar mais cedo para tirar as flores que teimam em pintar a sua caminhonete de cor de rosa. Escuto o chamado e vou, já sabendo que há algo para mim que não cabe na pequena abertura de cartas. E há mesmo: um pacote com livros. Até aí, nada de mais. Como toda professora, comprar livros é parte da minha rotina. Mas esse pacote é diferente: ele traz mais que livros. Ele traz as minhas janelas de observação da cidade, reunidinhas ali, em pequenos textos que divido com outro apaixonado por cidades como eu. Assim, de surpresa, ele ficou pronto: o livro. Enviado pela editora, me pegou tão dasavisada que quase abracei o carteiro.

Daí é aquele processo que todos que já escreveram um livro conhecem: abre o pacote, pega o exemplar, cheira, vê a capa (a moça do pintor francês me pareceu uma boa metáfora para o tema do livro. Propus e o pessoal da editora aceitou, para minha alegria), folheia, cheira de novo. Deixa de lado, toma uma água, pega mais um pouquinho, faz tudo de novo... E lá se foi embora uma tarde que deveria ter sido produtiva.

Então, aqui está o livro. Nele, eu e o professor Robert Pechman fazemos vários passeios pelas cidades, usando mediações diversas: arte, publicidade, literatura, cinema. Cada uma delas é uma janela, que nos permite ver uma panorama mais amplo do que se estivéssemos diretamente nas ruas da cidade.


É um livro de artigos, doze no total. São quatro escritos por mim, quatro pelo Pechman, e quatro em conjunto. Doze textos que condensam algum tempo de pesquisas e olhares para o urbano. Doze textos que representam um sonho, desses que fazem a vida girar e tornam tudo mais saboroso.


4.2.14

Eu olho, tu olhas. Nós vemos?


Tenho pensado muito sobre o olhar. Isso, por si, não é novidade: construí toda uma carreira pensando e pesquisando sobre formas de ver. De cidades à arte, passando pelo cinema, as visões e interpretações a respeito das manifestações urbanas e culturais sempre me interessaram. A capacidade que têm pessoas diferentes de lançarem seus olhares para algo e enxergarem coisas totalmente diversas é, para mim, fascinante e curiosa.

A novidade é que tenho pensado sobre o olhar que lançamos à outras pessoas. De desconhecidos às pessoas que nos cercam, somos rápidos em formar opiniões, em lançar julgamentos, em cristalizar teorias. Tudo vale de referência: as roupas, a escolha de palavras, o comportamento, os pequenos gestos. De minúsculos elementos construímos o nosso olhar, e esse, uma vez definido... ah! o bicho finca pé e custa a mudar. 

O escritor Oscar Wilde colocou na boca de um de seus personagens a frase emblemática: "só os tolos não julgam pelas aparências". E, embora morto há tempos, Wilde tem cada vez mais razão nesse momento das imagens rápidas, da espetacularização e da superexposição. Somos rápidos em formar opiniões. Mesmo sobre as pessoas que já conhecemos há tempos, mesmo que saibamos que todos somos complexos, possuímos milhões de ranhuras, detalhes, frestas, onde se escondem o melhor e o pior de cada um. 

Há alguns dias saí com uma pessoa que conheço há algum tempo. Seria exagero chamar o que nos une de 'amizade', mas é uma boa relação: cordial, bem humorada, de pessoas que têm gostos e realidade parecidos. E, embora conheça essa pessoa há algum tempo, nesse dia eu realmente OLHEI para ela. Em meio a sol, cervejas e conversa fácil, foram surgindo - sabe-se lá por que caminhos - os assuntos 'sérios'. Desses que a gente dificilmente conversa em mesas de bar, nos encontros combinados apenas para a diversão. E, escapando a qualquer expectativa, eles vieram: aqueles temas que acabam por ficar restritos ao sofá do analista ou aos amigos de uma vida inteira. Aqueles que nos assombram os pesadelos que atravessamos fechados em quartos escuros. Eles vieram sob um sol escaldante, no espaço aberto à beira de um enorme e lindo marzão azul brilhante. E eu, ouvindo e conversando, não parava de me impressionar: 'cara, eu conheço essa pessoa, e ela é tão alegre, e tão viva, e tão bonita... como pode ter passado por isso tudo?', me perguntava, atônita. Naquela hora, me lembrei de uma frase que tinha lido há alguns dias em uma rede social, que afirmava que cada um de nós vive uma batalha que é sempre desconhecida dos demais. 

Coincidentemente, ontem, na procura de um livro novo para ler, me caiu nas mãos "A vida que ninguém vê", da jornalista gaúcha Eliane Brum. Gosto do texto de Eliane: poético, fluido, sensível, direto sem ser simplista. Acompanhei sua coluna na revista semanal da qual ela fazia parte, e hoje leio seus textos pela internet. Mas o tema do livro... esse eu amei! A jornalista saiu por Porto Alegre olhando para as pessoas que ninguém olha, para as vidas que são o 'pano de fundo' da nossa, para aqueles que parecem - aos nossos olhos burgueses e acostumados a ver o que nos é igual - menos importantes do que nós mesmos. E que descobertas ela traz! Que personagens ricos, que universos interessantes, que comportamentos loucos e lindos! Acompanhamos, com Eliane, a história do menino sem pernas que sentia falta de voar, do macaco que fugiu do zoo e foi tomar uma cerveja no bar, do homem que fez da sua vida um eterno recolher de restos de outras vidas. Do sujeito que vai todo dia para o aeroporto e nunca voou em um avião e do sapo humano que cava a sobrevivência deitado nas lajes da cidade. E eu, aqui do outro lado das páginas, a cada história, a cada personagem, a cada luta diária das 'pequenas criaturas' de Eliane, me emociono e choro. Não de pena. De admiração. 

Da mesma forma que passei a admirar mais a amiga que tem a vida mais rica - e dura - do que eu poderia imaginar, admiro profundamente alguém que não anda e passa os dias deitado nas ruas da cidade, e, ao ser indagado "como é ver o mundo de baixo para cima?" é capaz de responder:
"- É mais bonito de baixo para cima do que de cima para baixo".

5.8.13

Encontros urbanos





Em cada cidade aconteceu de um jeito. Com alguns milhares de pessoas, com muitos milhares de pessoas. Com todo mundo vestido de branco, com cores das mais variadas preenchendo as ruas. Com caminhadas pacíficas, com gestos de violência que traduzem toda uma camada da população que cansou de não ser vista - e nem considerada - pela cidade que habita. Cada manifestação que vimos, ao vivo ou pela televisão e - em especial nesses tempos interessantes de mídia ninja - pela internet, teve uma cara toda sua, um jeito todo próprio.

Agora, já passado algum tempo do início das manifestações, vamos conseguindo ver com mais clareza os seus desdobramentos. Temos aqueles mais explícitos, que percebemos logo de cara: a passividade que caracterizava boa parte dos brasileiros deu lugar a um certo 'estado de alerta' no qual as pessoas estão pouquíssimo dispostas a deixar passar em branco situações nas quais se considerem desrespeitadas. Isso diz respeito às decisões políticas que definem os rumos de cada espaço urbano, mas se derrama por diversas áreas. Há algumas semanas atrás, em um supermercado de uma grande rede em minha cidade famoso pelo seu mau atendimento, os consumidores, cansados de esperar nas longas filas e ver mais da metade dos caixas fechados, iniciaram um 'levante', com reclamações coletivas, e os administradores rapidamente abriram mais alguns caixas para atendimento.

Mas, para além destes efeitos mais visíveis, acredito que há outros que vamos percebendo aos poucos. Algo que me chamou muito a atenção, nas manifestações das quais participei, é que passamos à pé por regiões da cidade nas quais costumamos ir apenas de carro ou ônibus. 

Especificamente em Vitória, há uma das pontes que promovem a ligação com o continente, na qual só é possível passar de forma motorizada e pagando pedágio nos dois sentidos. E essa ponte foi um dos principais alvos das pessoas em todas as manifestações - sendo uma das demandas principais do movimento em terras capixabas justamente a extinção do pedágio. 

A 'terceira ponte' - como ela é chamada - é um caso curioso: onipresente na paisagem de boa parte da cidade, ela é um paradoxo de presença versus inacessibilidade, já que as únicas oportunidades de atravessá-la à pé são competições de corrida que a incorporam no trajeto. Para mim foi indescritível a sensação de, junto à massa de pessoas, cruzar seu vão gigantesco caminhando, prestando atenção nos detalhes, sentindo o vento e vendo a paisagem, interagindo com outros passantes, desviando dos skates, bicicletas e patins. Eu, e todas as pessoas que a atravessamos, fomos tomados de um sentimento de estarmos nos apropriando de um pedaço da cidade que nos era negado até então. Pode parecer banal, mas posso garantir: foi emocionante.

Houve outros exemplos: avenidas nas quais passamos rotineiramente de carro e que tivemos a chance de atravessar à pé, prédios públicos nos quais nunca havíamos entrado e que foram ocupados durante dias, praças até então bucólicas que viraram campos de batalha de pedras, balas de borracha e gás lacrimogênio. Mas, acredito que para Vitória, o exemplo mais marcante tenha sido realmente o da nossa ponte. Símbolo maior da nossa conexão com o mundo, ela era como aquele amigo virtual que parecemos conhecer tão bem via computador e que um dia temos a chance de encontrar pessoalmente. E é aí que vamos ver se gostamos realmente dele ou não.

Cem mil capixabas atravessaram a ponte naquela que foi a nossa maior manifestação. Cem mil pessoas foram a um local da cidade no qual nunca haviam estado - ao menos, não daquela maneira. E isso não é pouco. Não é pouco numericamente, não é pouco simbolicamente. Não é pouco para reacender este sentimento que corremos o risco de ir perdendo aos poucos nos dias atuais: aquele que reafirma que a cidade é NOSSA, que deve ter seus rumos definidos de acordo com as necessidades das pessoas que nela vivem, e não do capital imobiliário, do fluxo do tráfego, ou dos interesses das grandes empresas.

Tenho percebido, nestas últimas semanas, sinais deste outro despertar: uma consciência maior a respeito da cidade. Vejo isso com muita esperança de que não seja apenas algo pontual que seja esquecido com o passar do tempo. Gostaria mesmo, que as manifestações, para além das suas consequências políticas, apresentassem essa excelente derivação: a de uma apropriação do espaço urbano como algo que faz parte das nossas vidas. E que, junto com isso, venha também a valorização daquele que - não importa a época - continua sendo o maior sentido da existência de uma cidade: o encontro. 

Alguns pequenos indícios me mostram que talvez possa estar acontecendo isso que eu, internamente, denomino como uma retomada da cidade: um movimento de pessoas que habitam o mesmo espaço e que, de uma hora para outra, se descobrem cidadãos. São mínimas ações que me fazem ter essa esperança: moradores de alguns bairros que começam a apresentar iniciativas de reivindicações de maneira independente das antigas associações comunitárias tão vinculadas aos políticos; questionamentos à decisões de mudanças na cidade que anteriormente nos eram empurradas goela abaixo sem preocupações maiores com a sua aprovação ou não pela população; propostas de ações coletivas de ocupação de espaços públicos. Tenho muita, muita vontade que as nossas cidades passem a ser locais que reúnam cada vez mais ações coletivas, ações que promovam o encontro, não apenas com o mesmo, aquele que vemos sempre nos cinemas, bares e restaurantes, mas entre os diferentes.

Este final de semana participei de uma destas ações: pessoas que se reuniram em uma praça para... desenhar. Algo que poderíamos fazer com mais conforto em nossas casas, algo que poderia ser mais conveniente se realizado como atividade solitária em horário e local à escolha de cada um, mas, paralelamente, algo que fez com que pessoas se conhecessem, pessoas interagissem, pessoas aprendessem umas com as outras. Algo que fez com que os rapazes responsáveis pela limpeza da praça se sentissem à vontade para parar ao lado de um dos desenhistas e demonstrar interesse, perguntar, interagir com um homem que, em outra situação, eles talvez não sentissem que tinham espaço para tal.

São mínimas as atitudes, são mínimos os indícios. Mas, ontem, um gari que talvez nunca tenha entrado em um espaço de exposições, voltou para casa com alguma informação sobre arte. O desenhista saiu dali com a sensação de que despertou o interesse e respondeu as dúvidas de alguém sobre o seu trabalho. E eu registrei um momento de interação peculiar entre dois cidadãos da mesma cidade que, embora vivam próximos, talvez sempre tenham estado separados, cada um vivendo na 'sua' Vitória. Estes dois homens encontraram, naquele situação, uma brecha para o encontro, e transformaram as suas cidades - ainda que por breves momentos - em uma só.

Não resisti ao lindo dia de sol que me proporcionou boas imagens e coloquei mais algumas fotos do domingo.Um domingo de verão em pleno inverno, um domingo de desenhos, um domingo de encontros.



















7.6.13

Pessoas. Cidades.

Pessoas e cidades. Pessoas nas cidades. Cidades de pessoas. Qualquer dessas combinações funciona, qualquer delas me apaixona. Todas atraem meu olhar e minhas lentes. 
Aqui, Berlim e Praga.


























30.5.13

A cidade que não está lá


Isto que se vê aí na foto é uma parte do pouco que restou de Lidice, uma pequena cidade a alguns quilômetros de Praga, capital de República Tcheca. Em 1942, Lidice teve todos os seus homens mortos, as mulheres enviadas para campos de concentração e as crianças encaminhadas para famílias alemãs, para que fossem criadas como membros da 'raça ariana'. As construções da vila, e até mesmo o cemitério, foram intensamente bombardeados, de forma a que não restasse absolutamente nada de pé. Nas palavras de Hitler, a cidade deveria "desaparecer de qualquer mapa".

Lidice, na verdade, foi a cidade escolhida para servir de exemplo e castigo, simbolizando a vingança pelo assassinato do braço direito do Fürer, Reinhard Heydrich, que estava na República Tcheca e tinha por missão dominar toda a região da Bohemia. Em 27 de maio de 1942, dois paraquedistas treinados na Inglaterra - o eslovaco Jozef Gabčík e o tcheco Jan Kubiš -, cercaram o carro de Heydrich nas ruas de Praga e o assassinaram. A operação foi toda cercada de lances dramáticos: a arma de Josef emperrou na hora em que ele, postado em frente ao carro que transportava o nazista, iria atirar. Jan, então, atira uma granada no Mercedes, enquanto Josef foge.

Heydrich, comprovando o ditado de que "vaso ruim não quebra fácil", não morre na hora, e ainda teima durante duas semanas no hospital, até sucumbir a uma septicemia, devido aos estilhaços da granada que penetraram no seu abdômen. A partir da sua morte, duas operações são deflagradas pelo Reich: a primeira era a de descobrir quem tinham sido os responsáveis pela emboscada e matá-los sucintamente. A segunda, com um sentido mais 'pedagógico' para o povo tcheco, foi exatamente o banimento de Lidice do mapa, como um recado para que se a submissão não fosse completa, o mesmo poderia acontecer a outras cidades, ou até a capital, Praga.

A cidade foi bombardeada, todos os habitantes adultos foram assassinados, fosse na hora, fosse mais tarde, em campos de concentração. As mulheres viram os seus maridos serem arrastados de casa e fuzilados, todos juntos, em um mesmo galpão. Não fosse o bastante, tiveram seus filhos arrancados de seus braços e, sem saber o que aconteceria com as crianças, foram embarcadas para o campo de concentração de Ravensbrück. Ao final do macabro dia 12 de junho de 1942, o saldo em Lidice era de 173 homens assassinados, 203 mulheres embarcadas em trens, e 105 crianças deslocadas para outras famílias. Mulheres que estavam grávidas foram conduzidas ao hospital (o mesmo que Heydrich morreu) e tiveram seus abortos forçados. A cidade morreu. Ao menos, fisicamente.




Visitei Lidice em um lindo dia de sol no final de maio. A paisagem muito verde, já florescida pela primavera, contrastava abertamente com a pesada história do lugar. Os tchecos - acertadamente, na minha opinião - optaram por manter o local do bombardeio exatamente como ficou depois do episódio: um descampado com alguns destroços marcando o local de algumas das construções. Um belíssimo monumento tenta retratar o desamparo das crianças, colocadas todas juntas, sem saber o que iria acontecer com elas.







A autora da obra captou, à perfeição, o que deve ter sido a expressão daquelas crianças, que em uma manhã de junho, viram o mundo como conheciam até então ser esfacelado: atônitas, separadas de suas mães, órfãs de seus pais que haviam sido mortos mais cedo, sem saber qual seria o seu destino, certamente sem entender o que estava acontecendo.


Hitler, certamente atingiu seu objetivo: varreu a Lidice concreta do mapa. Mas, ao fazer isso, construiu uma cidade muito mais forte do que aquela feita de pedras. Uma cidade simbólica foi - paradoxalmente à destruição da real - erguida pela fúria devastadora do austríaco. E esta não conhece fronteiras, não conhece dimensões, não respeita vontades de tiranos ensandecidos. Lidice não está lá. Ao mesmo tempo, não podia estar tão presente.

A Lidice que vemos hoje nos emociona, nos comove, nos faz ter raiva, nos envolve com histórias de pessoas que sequer sonhamos conhecer. Cumpre, assim, o verdadeiro papel de uma cidade: construir relações entre os seres. 

A Lidice que vemos hoje no local da antiga é uma cidade na qual uma mãe leva a sua filha para que ela deposite ali, aos pés daquelas crianças cujo paradeiro desconhecemos, daquelas crianças que, em outro tempo, poderiam ter sido ela própria, um brinquedo. Um símbolo de que a vida (sempre!) continua e de que aquelas crianças e aquela cidade jamais serão esquecidas.




Esta história continua. Me apaixonei por todo o episódio, e, como boa obsessiva, fui atrás do que aconteceu na outra operação do deflagrada pelo Reich: a punição aos culpados pelo assassinato. Este será assunto para um próximo post. 

Esta narrativa vai atravessada por um agradecimento especial a um apaixonado por história como eu, que me apresentou à história de Lidice e me levou para conhecer a cidade. Danke schön, Sérgio!